30 de novembro de 2011

despedida 2

19 de abril de 2010.

Dessa vez, ainda não foi tão sofrido. Acho que estávamos confiantes com a formalização do namoro. Tínhamos a energia dos iniciantes e o frescor de algo novo. Estávamos felizes, com aquele poder ilusório de que seremos felizes para sempre. Ocupados demais em gostar um do outro, sem tempo para perceber que estávamos dando pulos em cima de uma areia movediça. Não tinha mais volta.

Na segunda noite que nos encontramos, ainda lá em Vegas, eu tava com frio e ele me emprestou uma camiseta amarela que eu coloquei por cima do vestido (mais curto que o salário e mais justo que Deus - piriguete em Vegas: mode on).

Quando ele voltou à Philadelphia, eu pedi a camiseta para mim. Era nova, mas passou a maior parte desse tempo que estamos juntos embaixo do meu travesseiro. Ele foi embora, mas a camiseta dele ficou comigo. E o cheiro. Um cheiro bom, de porto seguro.

29 de novembro de 2011

philadelphia² - quer namorar comigo?

17 de abril de 2010.

Era manhã de sábado, a gente tava ainda deitado na cama, olhando pro teto, quando ele disse: - I think I'm falling in love with you. Eu olhei para ele com um sorriso no rosto, meio sem reação. Por mais que eu soubesse que a gente tava se apaixonado um pelo outro, eu não achei que ele ia falar a respeito. Depois de eu dizer que me sentia da mesma forma ele perguntou:

- So are we in a relationship? [ Então, a gente tá namorando?]
- I don't know, are we?, devolvi a pergunta. [Não sei, a gente tá?]
- I really want to. [Eu quero muito.]
- Well you never asked me. [Ué, mas tu nunca pediu.]
Pausa.
- You are right. Do you wanna be my girlfriend? [Tem razão. Tu quer ser minha namorada?]
- Do you realize, I'm leaving the country in about two months? [ Tu sabe que eu estou indo embora do país em dois meses, né?]
- Yes, I know that. I still wanna try it. [Sim, eu sei. Mesmo assim que quero tentar.]
- Ok then, YES! Let's try it! [Tá bem, então SIM! Vamos tentar!]

Ele tinha um dos sorrisos mais felizes que eu já vi! E eu também. Acreditar que vai dar certo é bom. É sempre bom. Depois que oficializamos a relação, saímos para ir no Love Park. Ironicamente, o único lugar que não tínhamos ido na primeira vez que ele veio. O Love Park era famoso nacionalmente pela prática de skateboarding, esporte que o Jared adora. Eu cheguei a teimar que era Love Square, mas agora admito que ele estava certo (ele adora quando eu digo isso). 

A noite, ele queria me levar em um REAL DATE e fomos num restaurante japonês super famoso, o Morimoto. O chefe e dono está sempre no Food Network, um canal de TV. O ambiente era muito clean e moderno, tudo branco. A primeira coisa que eu pensei foi que não ia dar muito certo EU comendo sushi de pauzinho num lugar chique daqueles. Eu tinha certeza que eu ia passar vergonha, mas acabei foi passando mal.

O sushi era ótimo e tava tudo lindo até eu começar a ficar meio tonta. Pobre é foda brincadeira, né? Se eu tivesse ido ali no mercado público em Porto Alegre, garanto que não tinha me dado nada. Ele ficou muito preocupado, eu tava pálida! Fui no banheiro passar uma água no rosto e a tontura foi passando. Voltei pra mesa me sentindo melhor, pagamos a conta e fomos embora. No outro dia, acordei com uma reação alérgica na pele. Até hoje não sabemos se foi o peixe cru do Morimoto ou se foi o pedido de namoro!

No domingo, fomos no restaurante brasileiro para curar o que quer que eu tinha. Acho que ele passou o dia inteiro formulando frases com a palavra girlfriend no meio (L). Segunda-feira, era o último dele em Philly e, último dia, era dia de cheesesteak. Dessa vez fomos no Jim's, o meu preferido.

Depois passeamos na South Street, que tem várias lojinhas e um clima meio antigo. Sobrou tempo e voltamos para o Love Park e para a pracinha perto do City Hall. Ficamos lá, esperando a hora de ir para o aeroporto chegar. A hora chegou, ela sempre chega.

27 de novembro de 2011

aeroporto 2

Sexta-feira, 16 de abril de 2010.

Preciso começar dizendo que, desta vez, eu chequei o voo dele na internet antes de sair de casa. Fui bonitinha para o portão e terminal certos. O site da companhia aérea também informava que o voo ia chegar meia hora antes do horário previsto.

Antes da hora, lá estava eu com um vestinho laranja, tendando disfarçar a minha ansiedade. Toca o celular:

- You are not gonna believe this! My flight it's half an hour earlier. I just landed.
  [Tu não vais acreditar, meu voo chegou meia hora mais cedo, já estou aqui.]

Eu não perdi a oportunidade de me fazer de boba.

- No way! I'm still driving, you are gonna have to wait for me. I'll be there in about 30 minutes. I'm sorry.
[Ah não, eu ainda estou na estrada. Vou demorar mais uns 30 minutos mesmo. Desculpa.]

Hohoho - Risadinhas do mal.

- Yaaa, that's fine! I'll be at the passengers pick up.
[Tá bom então, te espero na frente do terminal.]

Fiquei quietinha num cantinho esperando ele sair do portão. Quando ele apareceu, tinha um ar distraído e meio cansado da viagem. Ele já ia passando reto por mim, quando me viu e levou um susto. Largou a mala e me deu um beijo e um abraço apertado.

- You are here!!! I thought you were still on the road, little "rascal"! You look great!
[Tu tá aqui! Pensei que tu ainda estavas na estrada, "malandrinha"!]

Eu ri com um ar de sabichona e falei: SURPRISE!

Sem drama, pegamos o carro e fomos para um hotel em New Jersey, que ficava a 20 minutinhos do aeroporto, e não saímos mais de lá até o sábado de manhã. Merecido depois de 54 dias sem nos vermos pessoalmente. Sim, a gente contava os dias para se ver.

25 de novembro de 2011

skype¹

A primeira vez que a gente se falou no skype foi ainda em janeiro (2010). Eu não lembro o dia, mas lembro bem que ele tava como uma camisa de flanela xadrez, que eu adorei. Ele ligou, eu atendi. Os primeiros momentos foram muito constrangedores, pois afinal a gente MAL tinha se conhecido e a webcam por si só já é meio intimidante.

Passada a tensão da primeira ligação, o skype virou o nosso melhor aliado. Com o tempo, virou a nossa rotina. A gente se falava todos os dias a noite. "It's the highlight of my day", ele gostava de dizer. Também era a melhor parte do meu dia.

Quando eu ainda morava lá nos EUA, conseguiamos nos falar pelo celular. Eu criei o hábito bonitinho de acordar ele com uma mensagem de bom dia, já que a hora que o despertador dele tocava, eram dez horas da manhã no meu fuso horário.

A nossa relação começou assim, na base da conversa. Não dava para ficar um olhando para cara do outro sem falar nada, né?! Então a gente conversava para bem de podermos nos ver. Para nunca faltar assunto, falávamos sobre tudo.

O tempo voava e a gente se conhecia cada vez mais, de uma forma que eu não conhecia muita gente que eu via todos os dias. Estávamos longe, mas ficamos muito próximos; nos tornamos amigos, antes de namorados.

Uma semana depois da visita dele, a minha irmã foi passar 45 dias comigo lá nos EUA. Então dividíamos o computador, ela falava com o namorado dela e eu falava com ele. Foi nessa época que ele conheceu a minha irmã. Pela internet, mas conheceu. Acho que é por isso que ela entende bem a nossa história.

Ela voltou para o Brasil no dia 8 de abril. Ele já tinha as passagens compradas para ir me ver de novo no dia 16 do mesmo mês. Já era primavera nas terras americanas e as coisas entre nós estavam desabrochando cada vez mais rápido e ficando muito fora do meu controle, mas de um jeito bonito que nem as flores.

24 de novembro de 2011

despedida 1

21 de fevereiro de 2010.

Ele foi embora com a promessa de voltar. Foi esquisito ver ele ir pela primeira vez. Eu ainda não sabia bem como eu ia me sentir, mas de certa forma, eu sabia que a minha vida tinha mudado. Naquele momento, eu não tinha plena consciência disso. Era muito mais instinto do que razão. E eu também gostava de dizer para mim mesma que era só um romacezinho antes de eu voltar pro Brasil de vez e recomeçar a minha vida real, fora dos contos de fadas.

Dirigi cerca de uma hora na volta pra casa sem pensar em nada. Um exercício que tento praticar até hoje: NÃO PENSAR (eu sei que tem gente que não pensa naturalmente, mas, bem, esse não é o meu caso).  Foi só abrir a porta, que o meu host (pai das crianças que eu cuidava) tinha uma lista de perguntas. Jared huh? E aí? Como ele é? O que vocês vão fazer com essa distância? Tão namorando? [...] [???]. Era a primeira enxurrada de perguntas, das  milhões que viriam de todos os lados, principalmente, de dentro de mim. 

Por sorte, a minha host (mãe das crianças) estava por perto e disse: Peter, deixa de ser intrometido e para de fazer tanta pergunta! "Leave Fabi alone". Tocou o sino da liberdade na minha cabeça. De qualquer forma, olhei para ele e disse o que eu mais digo desde então: I don't know. Nesse dia, eu ainda tinha um sorriso despreocupado no rosto.

Subi para o meu quarto e fui tirar as coisas de dentro da bolsa. Ele tinha me trazido uma camiseta de manga curta, uma camiseta de manga comprida e um moleton, todos do time de college football da Nebraska. Presentes! :) Eu disse que depois dessa, ele ia ter que me levar para assistir a um jogo; ele respondeu que adoraria. No entanto, naquela noite, sozinha no meu quarto, parecia que esse jogo estava beeem longe de acontecer.

philadelphia¹

18 de fevereiro de 2010.

Ele chegou numa quinta-feira de noite, super tarde por causa do fuso horário. Na Philadelphia (leste) são 3 horas a mais que em Las Vegas (oeste). Mesmo assim, saímos para tomar uma cerveja. Tava um frio na rua, ainda tinha neve no chão. Acabamos achando um bar vazio chamado Big Bangs! Nós e as "bangs". Tomamos umas doses de tequila para encarar a caminhada de volta pro hotel.

Na sexta-feira, fomos para Old City. A parte histórica da cidade, que foi a primeira capital dos Estados Unidos. Visitamos o prédio em que está exposto o Liberty Bell, sino símbolo da independência e da abolição da escravatura e de lá conseguimos um tour no Independence Hall, prédio onde foi declarada a independência do país e adotada a nova constituição.

Um lugar cheio de documentos importantes e cadeiras antigas dos membros do governo em todas as instâncias. Não sei como não morri de alergia.

Um guia turístico esquisito foi nos despejando informações em um inglês tão rápido que me deixou tonta. Desisti de entender o que ele falava e só concordava para não passar por analfabeta do inglês na frente do meu date. Vamos combinar, né?!

Depois de um dia de cultura desses, fomos para um Irish Pub encontrar a minha prima e mais umas amigas minhas. Lembro que um cara veio falar comigo (só porque eu estava acompanhada, né?) e ele ficou me olhando com uma cara cheia de "olhos" e riu.

No sábado, fomos almoçar no restaurante brasileiro com mais duas brasucas! Ali foi a primeira alta dosagem de Brasil que ele teve na vida. Arroz, feijão, farofa, picanha, guaraná + eu, a Jaque, a Nany e a Fernanda juntas. Sobreviveu.

Mais tarde, visitamos uma exposição do corpo humano no Instituto Benjamin Franklin. Philadelphia é isso, museu e museu. Na saída, ele não resistiu e comprou sorvete de astronauta!! Passeamos pelas ruas famosas da cidade, saímos para jantar e voltamos para o hotel com um fardinho de Brahma! 

No domingo, fomos comer o tradicional cheesesteak. Não sei se preciso dizer que eu não fiz cerimônia nenhuma na frente dele, atraquei-ME no melhor sanduíche de carne e queijo do mundo inteiro.

Por fim, fomos passear no Art Museum, onde o Rocky Balboa se consagrou correndo escadarias acima. Fiz ele subir os degraus correndo como todo bom anfitrião de Philly. Entramos no museu porque somos  cultos  curiosos, mas não vimos tudo porque era muito chato e grande já era hora de irmos para o aeroporto.  Pegamos o carro e fomos. Estava na hora da primeira de muitas despedidas.


23 de novembro de 2011

franja

18 de dezembro de 2009.

Quando o Jared apareceu na minha vida, eu  morava nos Estados Unidos há quase 1 ano e meio. Eu era uma Au Pair, expressão francesa que significa "a par" ou "igual", nesse caso, como um membro da família. No nosso beabá, eu era babá mesmo. Morei com um casal de americanos na Pensilvânia e cuidava dos três filhotes lindos deles em troca de casa, comida, estudo e uma graninha no bolso. Nada mal.

Numa sexta-feira fria de dezembro, eles todos sairam de casa. Eu não fui junto porque as minhas amigas estavam indo pra lá e, alô Brasil, sexta-feira era dia de balada. Tomei um banho de banheira na paz de Deus, sequei o cabelo e me deu uma vontade louca de ter franja. Desci as escadas, abri a gaveta e peguei a tesoura da cozinha. Notem que eu fiz isso tudo deliberadamente, em sã consciência.

Cortei. Olhei pra pia e tinha muito cabelo. Criei coragem e olhei pro espelho. Pânico. Das duas uma: ou eu era uma criança de 4 anos que tinha acabado de assassinar a franja na distração dos adultos ou uma índia juruna de alguma tribo sem cabeleireira. Liguei pras meninas: - Cadê vocês? SOS.

Elas chegaram e rolaram de rir de mim. Merecido. Fabiana, a anta da tesoura. O problema todo é que isso aconteceu uma semana antes de Vegas e tudo que eu menos precisava era ir viajar como uma retardada. Enfim, passou-se uma semana e a franja cresceu um pouquinho; o suficiente para a Jaque conseguir dar um jeitinho com a tesoura de cortar cabelo surrupiada do banheiro da patroa. Sucesso.

Fui eu para Vegas de franja. Aí, adivinhem qual foi um dos primeiros elogios que eu ganhei do meu então futuro namorado: - I really like your bangs! (Gostei da franja) BINGO! No segundo dia em que nos encontramos, eu não tive condições de alisar a bichinha de novo e saí com ela presa. Quando no vimos perguntei se ele ainda gostava de mim sem franja. - Yes, I do. But I like the bangs, too (ele claramente preferia a franja).

Levando isso em consideração, quando ele veio me vistar em Philly, resolvi cortar a franja de novo! Não custava nada seguir com a farsa do cabelo bom por mais um tempinho, mas dessa vez eu fui no salão de beleza, pessoal.

Mas enfim, esse foi só um pensamento em vão. Existe uma possibilidade de que se eu não tivesse ficado sozinha em casa naquela sexta e não tivesse resolvido destruir a minha auto-imagem em menos de três minutos, eu não teria ido para Vegas com franja, não teria chamado a atenção do mocinho e, consequentemente, não estaria aqui contando essa história sem pé nem cabeça para vocês.

No próximo post, continua a visita dele em Philly!

22 de novembro de 2011

aeroporto 1

18 de fevereiro de 2010.

No dia 4 de janeiro, entramos no voo de volta para nossas vidinhas normais na Pensilvânia. Chega de Vegas, chega de luzes, chega de glamour. O negócio agora era cuidar das nossas crianças ranhentas e limpar bunda de nenê. Ainda assim na viagem, voltamos rindo das nossas aventuras:

"O mocinho que eu conheci disse que vai pagar as nossas passagens para irmos visitar ele no Texas", comentou uma das meninas às gargalhadas. "O meu, croata que mora em Nova York, disse que vai me ligar quando nós chegarmos na east coast porque quer uma relationship". Piadistas total. Por fim, eu falei, "e o meu que disse que vai me visitar na Philadelphia? Jura!". Rolamos de rir no avião. Risos do tipo: me engana que eu gosto!

Exatos 45 dias depois, estava eu no Philadelphia International Airport no saguão do desembarque. Como nada  é tão lindo e perfeito na vida real e/ou eu sou uma péssima protagonista dessa história, é óbvio que eu estava no portão de desembarque errado, no terminal errado. Ainda bem que Philly só tem um aeroporto, senão era bem provável eu estar no aeroporto errado também.

Quando ele falou para os pais dele que iria passar o final de semana na Pensilvânia com uma brasileira que ele tinha conhecido na primeira semana que estava em Vegas, eles não acharam a coisa mais sensata a ser feita. Convenhamos, né?! Então o pai dele disse: - Já pensou se ela não aparece e te deixa plantado no aeroporto? E a partir deste momento estava plantada a sementinha da dúvida na cabeça do menino.

Então, vocês imaginem a situação do rapaz quando ele sai do portão de desembarque e não me encontra lá? Porque eu, claro, estava bem feliz do outro lado do aeroporto, vendo todos os passageiros de todos os voos desembarcarem menos ele. Será que ele desistiu? Será que o avião caiu? Toca o meu celular.

Ele: - Onde tu tá?
Eu: - To aqui oras, no portão de desembarque.
Ele: - Não te vejo.
Eu: - Que terminal tu tá? 
Ele: - E.
Eu: - E?? (pqp, nem sabia que tinha terminal E). A bateria do meu celular tá acabando (great), não sai daí que eu to indo. 

Despenco-me eu todo trabalhada no salto alto do terminal B para o terminal E. E o tal E era longe viu. Ou pelo menos pareceu uma maratona. Eu queria impressionar o bofe, mas quando encontrei ele eu tava era botando os bofes pra fora. Nos abraçamos! Juntos.

Caminhamos milhas para pegar o meu carro no estacionamento errado, do terminal errado. Já falei né?! Uma nuvem de nervosismo flutuava em nossas cabeças e apesar da conversa fluir (no meu inglês pouco fluente), borboletas, cobras e lagartos habitavam os nossos estômagos. Era palpável.

Enfim, chegamos no hotel que ele tinha reservado, Hilton Garden Inn. Provalemente o melhor hotel que já ficamos nesses quase dois anos de idas e vindas. Impressionar era a palavra de ordem, tanto da parte dele,  quanto da minha.

No fundo, estávamos mesmo impressionados. Um com o outro e, principalmente, com o fato de tudo aquilo estar acontecendo com a gente. Um "tudo aquilo" que a gente nem sabia direito o que era, mas que a gente já sentia.

20 de novembro de 2011

what happens in Vegas

3 de janeiro de 2010.

Nem preciso dizer que ele disse que ia me ligar, me levar pra jantar pra conhecer o papa no dia seguinte e não ligou! Acho que isso já virou um paradigma, sabe? Eles dizem que vão ligar e a gente finge que acredita. Muitas vezes até damos o número errado, só pra achar que eles ligaram numa galáxia imaginária do nosso ego carente. Pois bem, eles não ligam. E a gente normalmente nem liga.

Dizem as mulheres sábias, que os homens não compram as vacas se podem tirar o leite de graça [se é que vocês me entendem]. O que faz perfeito sentido. Não tem porque ligar mesmo, se já bebeu toda a água dessa fonte. Então se a gente dá o leite, eles não ligam. Mas e se a gente não dá e eles também não ligam? Enfim, boa moça mode on.

Ele não ligou. Mas eu fiquei com a pulga atrás da orelha. Se fosse pra não ligar então que deixasse pra fazer isso depois de eu tirar uma casquinha. Afinal a gente tava em Vegas, babe. Mandei uma mensagem despretenciosa, mas que só pelo o fato de ter mandado já dava a entender que eu estava me jogando dos andaimes. 

Diz ele [um tempo depois¹] que não acreditava que eu tinha mandado aquela mensagem. Total quebra de paradigma. Ele respondeu dizendo que ia jantar com os amigos e que depois eles iriam ao Cirque de Soleil, mas que me ligaria quando o espetáculo acabasse. E, pasmem, dessa vez ele ligou.

Eu já tava com o meu pezinho de salto alto dentro do Bellagio, pronta pra passar a nossa última noite (domingo) em Vegas por lá quando ele ligou. Atendi o telefone e ele disse que não poderia ir porque no dia seguinte (segunda) era o primeiro dia de trabalho e que ele não queria estar de ressaca. Fora número 2. Contem comigo. Tudo bem então, até nunca mais, beijo, tchau.

Estamos lá no Bellagio e eu ainda inconformada. Que sem graça! Mandei outra mensagem. Atirem suas pedras, eu não me importo. Mandei mesmo. "E se a gente ficar de boa no cassino? Sem festa, sem bebida, tu vem me buscar?"

Diz ele [um tempo depois²] que não acreditava mesmo que eu tinha mandado aquela mensagem. Quebra de paradigma dois. Então aparece ele na frente do The Bank com um fardinho de budlight embaixo do braço [meu instinto não falha]. Diz ele [um tempo depois³] que caminhou horrores pra encontrar um lugar pra comprar cerveja em fardo, pois ele não queria me encontrar de cara limpa. Eu devo ser muito ruim de encarar mesmo. Romantismos da modernidade.

Fomos pro quarto dele e dos amigos, que eram muito legais. Antes de sair do Bellagio eu tomei uns vários shots! Afinal eu também não queria ser a pessoa mais sóbria do encontro. Turns out, eu era a menos sóbria e só lembro que passei a noite toda falando pelos cotovelos, contando histórias e eles rindo de mim.

Mais tarde, ele me deu uma carona até o meu hotel. E apesar de não ter tirado nenhuma casquinha do mocinho eu tava bem satisfeita de ter passado a minha última noite em Vegas com ele. Fiz as malas e fui embora acreditando naquela história de que o que acontece em Vegas fica em Vegas. Desconfiem.

19 de novembro de 2011

sem sorte no jogo

Janeiro de 2010.

O nosso primeiro encontro foi no segundo dia daquele ano. Dois de janeiro de 2010. Mas vale a pena contar um poquinho do cenário em que esse encontro aconteceu.

Tudo começou com a ideia de chutar o balde passar o Reveillon em Las Vegas. Eu e mais duas amigas queríamos encerrar com chave de ouro um 2009 de festa. Na época, morávamos na Pensilvânia e dirigimos até Washignton DC para pegar um vôo supimpa para a cidade do pecado. Dormimos no aeroporto, mas quem se importa. Chegamos em Vegas numa terça-feira, dia 29 de dezembro.

Dia 31, mais uma amiga aterrisou em Vegas para a virada do ano e lá fomos nós para uma festa OPEN BAR no Hotel Mirage. O open bar saiu em letras maísculas para tentar explicar que quinze minutos antes da meia-noite a nossa bolsa coletiva foi roubada sumiu com passaportes, celulares e dinheiro. Feliz 2010!

Estávamos incrédulas. Não nos abraçamos, não fizemos a contagem regressiva, não vimos os fogos de artifício, nem beijamos ninguém na boca. Ali começou a operação: suspender a bebida e resgatar os passaportes. Cada uma para um lado. Eu, no plim da globo, fiz plantão na porta da frente, pensando daqui ninguém sai com a nossa bolsa!

Até que a Nany achou a malfeitora no banheiro. A Jaque apareceu, subiu no vaso sanitário ao lado e fez o maior barraco. Os seguranças fecharam a entrada do banheiro e "bitch" foi uma das palavras mais bonitas ditas no toalete das moças.

Perguntaram se queríamos dar queixa na polícia. A bandida bem que merecia, mas não tínhamos mais tempo a perder e resolvemos ir dançar nos queijinhos palquinhos da boate e soltar as feras. Mal sabia eu que era quase uma despedida de solteira. Dançamos felizes e aliviadas o começo de um ano e tanto em nossas vidas.

Depois de quatro dias e quatro noites de festa turismo, chegou o sábado dia 2 de janeiro. A promoter que nos dava as dicas das baladas quentes, colocou os nossos nomes na lista para uma festa no Hard Rock Hotel. Produção, aí vamos nós! Chegamos na porta e não gostamos do lugar. Liguei pra moça e ela nos mandou pro Palms que tinha quatro boates na cobertura. Passamos pelos quatro ambientes e nada.

A Jaque prontamente disse que deveríamos ir para o Bellagio. O hotel fodástic* que tínhamos ido na noite anterior. Eu disse que não, "daqui a pouco vai encher aqui". Vamos pra lá, ela insitia. E eu contrariava, vamos gastar mais com taxi e eu to com vergonha de ligar pra promoter DE NOVO. Ela pegou o meu telefone e ligou. A mulher disse que não tinha acesso à lista do Bellagio, mas que conhecia um fulano lá que podería nos ajudar.

Chegamos e os nossos nomes continuavam na lista em função da noite anterior. Estávamos bom-ban-do em Vegas. O The Bank, nome do nightclub do Bellagio, era um sonho. Um sonho de luxo. No meio desse sonho, um carinha convida a minha amiga Nany para ir na parte VIP (falei, bombando). Ela e as amigas.

Era ele.

Subimos na parte VIP com o mocinho, que tava acompanhado de um casal de amigos. Começamos a conversar e a dançar todos juntos. Era uma festa como nenhuma outra. A conversa com o grupo todo foi dando lugar ao cochicho no meu ouvido.

Ele se chamava Jared e tinha 23 anos, era do midwest do país. Mais precisamente Lincoln, Nebraska. "Essa loucura de Vegas, não tem nada a ver comigo, é tudo novo pra mim". Ele tinha se mudado para Vegas há uma semana por causa do emprego. "A gente tinha ido para uma festa lá no Hard Rock, mas acabamos não entrando e vindo pra cá", ele me disse e eu ri das piadinhas do destino.

Terminou a festa e fomos para o hotel em que ele estava hospedado, o Baly's. Os amigos dele subiram para o quarto e nós ficamos no casino. A minha identidade tinha ficado na bolsa das meninas, por isso e/ou graças a isso eu não podia mais beber. Ficamos lá, sentados nas maquininhas caça-níqueis, jogando dólares e conversa fora. Estávamos realmente sem nenhuma sorte no jogo naquela noite... hoje em dia a gente sabe o porquê.