26 de dezembro de 2011

intervalo

Vamos mudar de assunto porque o assunto chegou. Ele chegou! O blog vai parar por duas semaninhas para criar mais memórias para essa história que segue com tudo no ano que vem. Espero que o Papai Noel tenha sido bonzinho e que o Ano Novo seja lindo para todo mundo que me acompanha aqui. :)




Feliz 2012 e até a volta!


20 de dezembro de 2011

fireworks

4 de julho de 2010 - Dia da Independência dos Estados Unidos.

O voo de volta para a Pennsylvania tinha sido péssimo. Não dormi nada e ainda fiz uma conexão absurda nem me lembro onde. Eu com cara de choro e a pessoa do meu lado perguntando seu tinha me divertido muito em Vegas (Y). "Sim, demais."

Cheguei umas 10 e tanta da manhã. Peguei um trem pra Central Philly e mais outro para Exton. A Fernanda, obviamente, se atrasou para me buscar e eu cheguei em casa quase duas da tarde, que nem um zumbi. Desci do carro e as crianças, que estavam na rua, vieram correndo me abraçar: Faaaaabi! Senti um embrulho no estômago. 

Entrei pela porta da garagem e dei de cara com o Peter (hostdad), que perguntou se eu tava "ok". Eu não tava ok e já comecei a chorar na hora. Ele, querido, perguntou o que eu queria fazer no meu último dia nos EUA. "A gente pode ir escalar ou pegar o barco", dizia ele, com empolgação na voz, tentado me animar. Agradeci. Eu queria era ficar ali, no lugar que eu tinha aprendido a chamar de casa. 

Fomos buscar a Jaque, que tava com o pé quebrado para passar o dia comigo. A Nany estava viajando. A Joyce e o Mark também foram me ver. Eu lembro que eu estava meio aérea. Queria dar atenção para todo mundo, tinha mala para arrumar e a vizinha estava dando uma festa para comemorar o Dia da Independência e o aniversário dela - agora de verdade.

Fomos para festa, tipicamente americana. Chips, hamburguers, copos vermelhos de plástico, cervejas em lata. Era bem aquilo que eu queria mesmo. Fazia parte da despedida que eu ainda estava processando. Fogos de artifício no céu e uma explosão de angústia dentro de mim. Viva o 4 de Julho.

Nós, no dia 4 de julho de 2010.

Entre um fogo de artifício e outro, recebo esta mensagem do Jared:

When we kiss there's sparks. When we touch, my heart starts. You are the perfect girlfriend, like art. The worst thing in the world is when we are apart. 

Agora aguenta, Fabiana. Quem mandou?

Coloquei as crianças na cama e fui levar a Jaque em casa. Na volta, fiquei até as 3 da manhã terminando de arrumar as malas. Os dois últimos anos da minha vida estavam espremidos ali, entre um tênis e outro. Três horas depois, acordei com os olhos estalados. Eram 6: 15, do dia 5 de julho de 2010. Pulei da cama e corri para o banheiro com ânsia de vômito. Aquele dia era como um teste de matemática, daqueles que a gente não quer que chegue, mas quer que passe logo. Eu queria que já fosse 6 de julho, mas não era.

Voltei para o quarto e liguei para minha mãe aos prantos. Se fosse para ir embora, eu queria ir para casa. Eu queria colo. Colo de mãe. Mas, não, eu estava indo para a França! Naquele momento, a ideia de passar o verão lá, parecia a coisa mais ridícula do mundo. Eu nunca, em mil anos, pensei que ia ser tão difícil deixar a terra do Tio Sam. Isso, sem falar que a saudade da minha casa, casa mesmo, já estava me corroendo por dentro. Exatos 22 meses longe, eu não queria ir embora, mas queria ir para casa. E, no entando, eu estava indo embora e não estava indo para casa. Alguém me ajuda?

Fomos tomar café da manhã, pegamos a Jaque e fomos para o aeroporto. Eles foram todos me levar. A Angi (hostmom) ficou do lado de fora do aeroporto cuidando o carro mal estacionado. Queríamos uma despedida rápida. Ela me deu um abraço sofrido. O Peter me ajudou com o check in, depois disso, só me lembro do Chase chorando, do Owen me olhando de canto de olho e do Cael (2 anos) me perguntando porque o pai dele estava chorando. Nós, adultos, choramos que nem crianças. Abracei todos bem forte, fiquei lá esperando o carro sair do meu campo de visão e fui pegar um avião para lugar nenhum que acalmasse meu coração... 


*Quem quiser ler mais sobre esse drama dia, pode dar uma passadinha aqui. O vermelho poá está abandonado, mas relembrar é viver!


19 de dezembro de 2011

despedida 4

3 de julho de 2010.

Apesar da minha mala feita no canto do quarto, passamos aquele sábado inteiro como se fosse um dia normal, na vida de um casal normal. Eu tinha arrumado as minhas coisas um dia antes. "Não quero te ver fazendo a mala", ele tinha pedido.

O Jared fez café da manhã, aquele mesmo dos filmes que vocês estão imaginando. Comemos e saímos de casa. Estar dentro do apartamento era um exercício difícil para mim. Só não mais difícil do que entrar no apartamento. Nos últimos dois dias, eu enchia os olhos de lágrimas toda vez que entrava no apartamento, não pelo lugar, mas pelo que representava. A vida que eu poderia ter ali com ele, mas não tinha e nem teria. A vida que não era minha. Eu não tinha tempo. A gente não tinha tempo. Era um vazio de coisa não-feita, de vida não vivida, do que poderia ser e não era. 

Era o mesmo vazio que eu sentia quando a gente andava no meio das pessoas, ele segurando a minha mão, no meio daquela gente que não era a minha gente, que falava aquela língua que não era a minha língua, num país que também não era o meu país. A única coisa que eu tinha, era ele. E, ao mesmo tempo, ter ele significava deixar de ter tantas outras coisas que eu queria, como a minha gente, a minha língua e o meu país. Não, eu não sou nacionalista, mas era uma questão de identidade, de raíz. Eu queria ficar, no entanto, eu tinha uma urgência de ir, de encontrar o que era meu de verdade, de me encontrar.

De tarde, fomos para a piscina do condomínio. Lembro que conversamos sobre o passado, que era seguro e imutável. Tínhamos medo de falar no futuro e o presente estava prestes a acabar. Naquela noite, fomos jantar num restaurante de comida mexicana pertinho dali. Comi meus tacos à beira do choro. O dono me olhou intrigado, de certo achando que a guacamole era tão boa que eu tinha até me emocionado. Na verdade, já estava ficando impossível ignorar a montanha russa de sentimentos na qual o meu organismo tinha se transformado.

Entramos no apartamento, dessa vez não teve jeito. Era provavelmente a última vez que eu entrava naquele lugar, que tinha fotos minhas na geladeira, mas não era meu, nem nosso, era dele. Desabei e ele nem conseguiu me consolar, sentou do meu lado e chorou junto comigo. Choramos. 

O meu voo de volta para a Philadelphia era só às onze da noite. Eram oito horas e a gente não sabia mais o que dizer ou fazer. Literalmente sentamos e choramos até umas nove, quando fomos para o aeroporto. No caminho, ele me disse: "If you ever get back to United States, would you please let me know? I will want to hear from you, no matter what."

[Se algum dia tu voltares para os Estados Unidos, tu por favor poderia me avisar? Eu vou querer saber de ti, não importa  o que aconteça.]

Eu lembro dessa frase como se fosse hoje, porque retumbou na minha cabeça por muito tempo. Acho que mesmo se eu passasse mil anos sem voltar para os Estados Unidos, o dia que eu voltasse, eu ia lembrar dele falando isso, olhando para a estrada e para mim, querendo ter certeza de que eu tinha entendido, já que eu não respondia nada verbalmente. Fiz que sim com a cabeça, me sentindo a pior pessoa do mundo por não ter nada de bom para dizer para ele. Eu estava indo embora, sem data para voltar.


16 de dezembro de 2011

airplanes

Pausa na despedida para colocar mais uma música na nossa trilha sonora. No verão de 2010, o hit Airplanes do rapper B.o.B, era um dos top five de todas as rádios do país. Todo mundo queria fingir que aviões no céu eram estrelas cadentes. Inclusive nós.

Nesses últimos dias em Vegas, a gente gostava de ir para a área comum do condomínio usar a hot tub, que ficava na rua. A água quentinha, a cerveja gelada, a conversa sincera e os aviões cruzando o céu. O apartamento ficava a 15 minutos do aeroporto, então nós estávamos bem servidos de estrelas cadentes imaginárias. Muitas estrelas para um só pedido.



15 de dezembro de 2011

Las Vegas² - Copa do Mundo

Se na minha primeira ida a Vegas a gente tinha feito pouco turismo, dessa vez foi menos ainda. Não queríamos saber de cassinos, restaurantes caros, shows, baladas, nada. Só queríamos saber um do outro e da Copa do Mundo.

Nos Estados Unidos, as crianças escolhem os esportes que irão praticar no período pós-aula. Estes são divididos por temporadas. Por exemplo, baseball na primavera e verão, football no outono e inverno. O futebol/soccer era sempre na mesma temporada do futebol americano. Sendo assim, o Jared nunca jogou futebol americano, sempre futebol brasileiro soccer. E ele era sempre o número dois. Zagueiro.

Jared, sua bola e seus mullets pra lá de charmosos
Aí que nasceu essa paixão, que deve ter levado ele a cair de amores por uma brasileira, também apaixonada por futebol. Eu fui para Vegas armada com uma camiseta da Seleção Brasileira de presente. Ele ia ter que torcer para o Brasil, por bem ou por mal.

Um dia depois da minha chegada (23/06), era o dia do jogo dos Estados Unidos contra a Argélia. Pois bem, se eu ainda queria um teto na cidade do pecado era melhor eu comemorar aquele 1x0.  No dia 25, foi a vez dos brasileiros empatarem com os portugueses em um jogo sem gols. Esses jogos começavam às 11 horas aqui no Brasil e às sete da manhã lá em Vegas, por causa do fuso de quatro horas nessa época do ano. Então, a gente pulava cedo da cama. E eu voltava a dormir e roncar no sofá.

No dia 26, os EUA foi eliminado por Gana. E ele tinha era uma gana de me esgoelar, porque eu tive que implicar, né? Amores, amores, futebol a parte. No dia 28, segunda-feira, comemoramos (ele vibrou junto, porque ele é amado) os três gols do Brasil em cima do Chile em um bar vazio na Califórnia. Era 11:30 da manhã, mas tinha uma das cervejas preferidas do Jared no special. Ele lembra melhor da Blue Moon com laranja do que dos gols. 

No sábado que veio antes deste jogo, a gente resolveu de última hora fazer uma road trip para Huntington Beach, CA. Chegamos já tarde e saímos só para jantar. Nem preciso dizer que o domingo amanheceu nublado. Os branquelos foram para praia do mesmo jeito. Ele, sem protetor. Eu avisei, avisei, avisei. De noite, o meu namorado tava da cor do porquinho Baby. Já eu esqueci de passar protetor na bunzanfa brasileira 'quedeusmedeu' e na parte de trás das pernas e fiquei parecendo um picolé minissaia. 

Na segunda (28), ele tirou o dia de folga, assistimos ao jogo da Seleção e fomos passear em Long Beach antes de voltar pra "casa". Sentamos na praia a tardinha. Um ventinho gostoso, com cheiro de mar, vinha do Oceano Pacífico. E a gente ali, na companhia um do outro. Depois disso, pegamos a highway de volta para as luzes de Las Vegas.

No dia 2 de julho, acordamos cedinho para ver o Brasil ser eliminado por aquela cabeçada maldita daquele holandês maldito. No entanto, a eliminação na Copa do Mundo não era nada. No dia seguinte, era o nosso mundo que ia cair. No meu mundo, os três dias que viriam na sequência, seriam piores do que perder milhões de Copas do Mundo. 


14 de dezembro de 2011

aeroporto 4

22 de junho de 2010.

Exatamente um mês depois, eu estava de volta em Las Vegas, muito provavelmente pela última vez. Deep  breath. Eu tinha que ir, pelo menos mais essa vezinha. Depois, era depois. Peguei carona, trem, avião e mais outro avião e cheguei.

Sai do portão de desembarque procurando uma tomada. O meu telefone estava sem bateria (Y)! Eu não queria me perder de novo. Não achei tomada nenhuma e resolvi sair pelo mesmo lugar que eu saí da outra vez. Em último caso, baggage claim number 10, onde tínhamos nos encontrado antes. Fui.

Vocês sabem aquelas pessoas que ficam plantadas no desembarque de passageiros com uma plaquinha na mão? Fulana de tal. Sicrano nãoseidasquantas. Eu sempre leio todos os nomes pensando que essas pessoas devem ser muito importantes e que estão chegando naquele lugar para uma conferência ou uma reunião urgente de negócios.

Se eu não estivesse ainda pensando nas benditas tomadas e preocupada com a bosta do meu celular desligado, eu teria lido Fabiana Caldas e teria visto um loiro, alto, com olhos azuis, de terno, atrás da plaquinha. Sim, pasmem. Um calor fdp do deserto e ele de terno. Eu já ia passando reto, quando ele falou HEY! e balançou o meu nome no ar, com uma cara de quem diz "Fabiana Caldas, conhece?". Era eu mesma.

Eu queria ter registrado aquele momento para mostrar para vocês. Garanto que se eu soubesse que vocês estariam lendo essa história agora, eu teria dito: para tudo, não te mexe, vou bater uma foto! A plaquinha com meu nome eu guardei, afinal de contas, não é todo o dia né?!

Pegamos o carro no estacionamento e eu disse:

- Não quero ver as luzes de Las Vegas hoje, me leva pra casa pelo caminho mais curto.
- Que bom, porque eu não aguento mais esse terno!

^^


12 de dezembro de 2011

pensilvânia

O mês de junho daquele ano passou voando em Countryside Drive, Kinzers, PA. Enquanto eu olhava pela janela e via o milho do vizinho crescendo sem parar, uma tempestade de sentimentos tomava conta de mim. O sol forte aquecia os últimos dias da primavera e já anunciava o verão, mas aqui dentro estava tudo meio cinza. Uma inquietação. Uma agonia.

O relógio corria e o meu tempo estava acabando. Apesar de eu estar pronta para ir embora, com o dever mais do que cumprido, metade das malas prontas e uma saudade imensa de casa, eu sabia que ia doer muito. Mas doeu muito mais do que pensei

Todos os dias eu olhava para a carinha dos meus meninos, que logo logo estariam crescendo muito mais rápido que o milho do vizinho, sem eu estar por perto. Eles iam crescer sem mim, eu ia virar uma lembrança, uma foto no porta-retrato do quarto que eu mesma coloquei para pelo menos garantir que eles não me esqueceriam assim tão fácil. E ainda tinha os amigos e o Jared - a cereja no bolo dessa saudade, dessa vida que ia ficando para trás. O que ia acontecer com a gente? O que ia acontecer comigo?

Enquanto eu pensava em tudo isso e o vizinho cuidava do milho, a minha hostfamily planejava uma festa surpresa para minha despedida. E me enganaram direitinho. No dia 19 de junho, cheguei no aniversário forjado da vizinha (não a dona do milharal), atrasada, de havaiana, com cara de ressaca e sem presente. Resolvi entrar pelos fundos para não fazer alarde. Só queria mesmo dar um abraço nela.

o milho do vizinho

Abri a porta e dei de cara com todo mundo olhando para mim, batendo palmas e gritando eeeeeeee! Fiquei pasma, ali de boca aberta, com a mão no peito, achando que meu coração ia despencar. Até a minha prima, que mora em Philly, estava lá. Abracei todo mundo, ainda fora de órbita. Eles estavam loucos de fome, esperando eu chegar para começar a comer! E eu bem faceira no shopping com a Jaque e a Nany, que sabiam da trama, mas não viam jeito de me mandar pra tal festa.

Depois que eu me situei um pouco, as meninas disseram para eu ligar para o Jared. Ele já tava com a passagem comprada para estar na festa também de surpresa, mas na última hora desistiu. Deixem eu explicar porquê:

Eu ia passar a minha última semana nos EUA numa praia na Carolina do Norte com a minha família americana, mas resolvi que eu já tinha vivido quase dois anos amando sem limites aqueles monstrinhos e que eu queria mais tempo com o Jared - isso tudo sem saber que ele viria. Uns dias antes da festa, eu disse para ele que iria passar mais dez dias em Vegas. Ele achou melhor então não ir para a Pensilvânia, porque aquele seria o meu último final de semana com as minhas amigas e hostfamily.

Se eu soubesse, eu teria dito para ele ir. Queria que ele estivesse lá, mas eu não podia deixar de sorrir com a generosidade e a preocupação dele em fazer o que parecia ser melhor para mim. Agora me digam onde é que eu vou encontrar outro homem tão compreensivo assim?

Desliguei o celular e curti aquela delícia de surpresa. Afinal de contas, eu não precisava procurar por nenhum outro homem compreensivo ou não. Em três dias, eu estaria com ele. Mais uma vez.

10 de dezembro de 2011

smile - uncle kracker

A minha mãe bem que me avisou: não vai pra Vegas. "Tu vai te apegar demais e daqui a pouco tu já vai embora". Tarde demais. Eu achava que eu não tinha nada a perder. Mas eu tinha: me apeguei demais e eu já ia embora. Bem do jeitinho que ela disse que ia acontecer.

Dito isso, uma das músicas mais tocadas nas rádios naquele maio de 2010 era Smile, do Uncle Kracker. Nem preciso de dizer que eu, com sintomas de paixonite aguda, totalmente vulnerável à breguice, fui abduzida pela música e ficava "sorrindo que nem o sol, cantando que nem um pássaro, dançando que nem uma boba, zumbindo que nem uma abelha." Vê se pode uma coisas dessas?! Era o início do fim.
You make me smile like the sun/ Fall out of bed, sing like bird/ Dizzy in my head, spin like a record/ Crazy on a Sunday night/ You make me dance like a fool/ Forget how to breathe/ Shine like gold, buzz like a bee/ Just the thought of you can drive me wild/ Ohh, you make me smile



O Uncle Kracker ainda me racha a cara com esse clip. O Jared disse que tinha uns catorze anos quando ele lançou o primeiro álbum. E achava engraçadíssimo pra não dizer outra coisa eu gostar do tal Uncle Kracker. Well, eu sei que tenho um gosto musical bastante questionável, mas a música é bem bonitinha! Além disso, em minha defesa, ela gruda na cabeça.. you make me smiiiiiiiiiiiiile.

9 de dezembro de 2011

Las Vegas e despedida 3

Eu fui passar dez dias lá. Para nós, parecia muito. Era mais que um final de semana estendido, era mais que uma semana inteira. Dois sábados, dois domingos. O apartamento dele era relativamente pequeno: quarto, sala e cozinha. Grande para nós dois. Maior que um quarto de hotel. Era um xodó de apartamento. Entrei e estava tudo no lugar. -Welcome, ele disse.

Abri a geladeira (gordinha é triste). Tinha um estoque de ice coffee, budweiser e corona. Acho que ele estava mesmo me esperando. Nem preciso dizer que os dez dias passaram em um piscar de olhos.

Logo nas primeiras noites, eu fiasquenta sonhei com um urso preto gigante. Acordei  aos berros, ele me segurava e eu, ainda meio dormindo, tentava me desvenciliar do "urso". Quando abri os olhos, ele tinha uma expressão de terror! Deve ter pensado, onde é que eu tava com a cabeça quando eu pedi essa louca desvairada em namoro (Y). E eu, louca desvairada que sou, cai na gargalhada. Achei que ele ia me colocar no próximo voo de volta pra Pennsylvania, mas ele caiu na risada junto. Rimos até rolarem lágrimas.

O Jared fazia café da manhã americano, eu fazia jantar brasileiro. Ou então íamos comer fora. Ele se dividia entre eu e o trabalho, afinal, era só eu que estava de férias. Ás vezes, eu ia pro trabalho junto, naquela época, ele era o único funcionário da empresa. Outras vezes, eu ficava na piscina do condomínio ou fuçando "secretamente" nas coisas dele. Se ele tivesse alguma coisa que eu não pudesse ver, era a hora de descobrir!

Numa dessas, achei um cachorrinho de pelúcia e um álbum de fotografia, com fotos nossas. E tinha uma dedicatória para mim. Era pra ser surpresa, mas eu adoro estragar surpresas para mim mesma. Como diriam, meus amigos do jornalismo, fofo em Cristo!

De noite, saímos para fazer turismo de casal em Vegas. Nada de balada. Naquela sexta-feira, resolvemos ficar em casa e ver um filminho de mulherzinha. Chick-flick. Coitado, ter namorada é isso: assistir comédia romântica. Hoje em dia ele até torce para os finais felizes!

Eu lembro bem dessa noite, porque foi uma das melhores sextas dos últimos tempos. Totalmente diferente das minhas sextas-feiras de bar em bar em West Chester, que eu adorava, por sinal. Mas alguma coisa tinha mudado em mim e ficar em casa na sexta com ele, foi bom, foi até melhor. Era estranho me dar conta disso.

A gente procurava evitar o fato de que eu iria embora de Vegas em poucos dias e embora do país em aproximadamente um mês. Era o nosso elefante na sala. Estava sempre ali, mas a gente ignorava o máximo que podia. Falamos uma noite, era simples: ele queria que eu voltasse, eu alegava que ainda nem tinha ido.

Até que chegou o dia de fazer as malas. Eu ia embora na terça-feira, primeiro de junho. No domingo, ele começou a se sentir mal, dor de garganta e no corpo. Na segunda, só piorou. Teve até febre. E na terça de manhã (1º de junho), quando foi me levar no aeroporto, foi péssimo.

Já seria ruim o bastante ir embora. Deixar ele doente, era muito pior. Ele estacionou na porta do aeroporto. A intenção era fazermos uma despedida rápida, puxar logo o esparadrapo, sem delongas. Ele me alcançou a mala, me deu um beijo e um abraço apertado. Bloqueie o que ele disse. Lágrimas, não de riso. Virei as costas e entrei no aeroporto. Olhei para trás, o carro dele estava arrancando.

Mesmo não tendo certeza de nada, algo me dizia que a gente ainda ia se ver de novo. Não podia acabar ali, daquele jeito. E não ia.


6 de dezembro de 2011

aeroporto 3


22 de maio de 2010.

Eu ainda tinha dez dias de férias para tirar. Prometi que ia voltar a Las Vegas e voltei. Era fim de maio e já estava ficando calor. Na manhã daquele sábado, eu tinha o teste TOEFL para fazer em York, mais ou menos à uma hora da minha casa em Kinzers, PA.

Eu e uma colega alemã, saímos umas 6 da manhã. O carro da minha host estava fora da garagem bem atrás do meu no sentido oposto. Nossos carros formavam um T. Automaticamente, eu (sem café e com a cabeça em Vegas) entrei no meu carro e dei uma ré, colocando o cinto de segurança, em cheio no Volvo dela. Inacreditável, eu sei. Em minha defesa, não tinha crianças na rua e ela nunca deixava o maldito carro fora da garagem.

Fui fazer a porra da prova aos prantos. A minha host foi super legal, mas eu não conseguia acreditar que eu tinha feito aquilo. Além de não conseguir transferir a prova eu ainda tinha que bater uma foto. Eu tinha uma raiva tão grande da situação, mas tão grande que nem um sorriso amarelo eu consegui dar. Pelo menos fui aprovada.

Em casa, troquei o carro pela mala e peguei uma carona para a estação de trem com a alemã. Ela me deixou em Exton, lá peguei um trem para Philadelphia, onde peguei um trem para o aeroporto – o segundo, porque o primeiro passou na minha frente e eu perdi (ARG). Pelo jeito, eu estava em transe no Planeta Caldas, me ferrando loucamente no Planeta Terra. Meu voo era direto, mas foram longas e intermináveis 5 horas. Eu só queria chegar!

Em Vegas, segui o fluxo das pessoas e acabei descendo do portão de desembarque pela escada rolante secundária. É óbvio que ele estava me esperando na principal. Cheguei no carrossel das bagagens e nada. Liguei. Ele atendeu já falando, ansioso:

- Where are you? [Onde tu ta?]
- Baggage claim number 10. [Carrossel de bagagens número 10.]
- How did you get there? [Como é que tu chegou aí?]
- Idk, I just followed people without thinking. [Não sei, eu só segui as pessoas sem pensar.]

Sentei, coloquei o pé em cima da mala e fiquei esperando. Exausta. Logo em seguida ele apareceu com o olhar apreensivo, o andar apressado e um copo de Starbucks na mão. Vanilla Latte. Quando ele me viu, ele relaxou e eu também: juntos.

No caminho para o apartamento, ele disse:

- Don’t mind me. I’ll be smiling non-stop for at least two days.
[Não dá bola para mim, eu vou ficar sorrindo sem parar pelo próximos dois dias.]

Eu, inevitavelmente, sorri também. Ele tem esse dom!

4 de dezembro de 2011

45 dentes

Quando ele mostrou uma foto minha para a mãe dele, a primeira coisa que ela disse foi:

- Gee, she has a lot of teeth!!!
[Nossa, ela tem um monte de dentes!]

Aí eu falei pra ele que era uma coisa de brasileiro. "A nossa 'espécie' tem 45 dentes."



Virou uma das nossas (muitas) piadas internas.

2 de dezembro de 2011

brigas online

Com o namoro vieram as brigas, as cobranças, os desentendimentos. Eu sempre dizia para ele: girlfriends can do that! Namoradas podem mesmo exigir satisfação, ter ciúme e fazer piada. A intimidade é aquela faca de dois gumes.

Como nós não convivíamos, as brigas por causa da tampa do vaso e do controle remoto vieram bem depois. Nesse comecinho de namoro, a gente discutia o futuro. A gente brigava um com outro porque queríamos ficar juntos e não tinha jeito. Ele queria a resposta que eu não tinha; e ainda não tenho. Eu me irritava com a cobrança e cobrava de volta. E assim a gente ia.

A briga terminava ali com a chamada do skype, naquele botãozinho vermelho. Puf. Sumia ele da tela do meu computador e crescia um vazio do tamanho do mundo dentro de mim. Não adiantava fazer beicinho, ele não ia ver.

Ele: Love it when you hang up on me. Adoro quando tu desliga na minha cara.
Eu: You said whatever, good night! Love it when you wanna break up with me. Tu disse "que seja", boa noite, adoro quando tu quer terminar o namoro comigo!
Ele: All I know is that I like you, need you, wanna be with you and and LOVE you! You make me happy and you make my heart skip a beat. I know what I want, I just hope one day soon, you know what you want! Tudo que eu sei é que eu gosto de ti, preciso de ti, quero estar contigo e TE AMO. Tu me faz feliz e faz o meu coração bater fora de ritmo. Eu sei o que eu quero, eu espero que um dia logo, tu saibas o que tu quer!

A gente sempre se reconciliava logo em seguida, no máximo no outro dia de manhã, por mensagens, no computador ou no celular. Ele sempre reclama, que quando a gente briga, leva um dia inteiro pra gente se ver de novo e não dá nem pra sentir o abraço da reconciliação.

Em um desses momentos, saiu o meu primeiro eu te amo. Romântico? Não muito. Mas intenso como tudo que diz respeito a nós dois.

Ele: I don't want you to be mad! I'm just saying that I have done everything I can, to show you how much I want to be with u. I'm not saying you aren't doing anything! I just wanna show u how much I care. Eu não quero que tu fiques braba. Eu só estou dizendo que eu já fiz tudo que eu podia para te mostrar o quanto eu quero ficar contigo. Eu não estou dizendo que tu não estás fazendo nada. Eu só quero te mostrar como eu que me importo.

Eu: I know how much u care and I'm not mad. Only frustrated like you are. You don't seem to know how much I CARE! Maybe because I was waiting to tell you on the right moment! that's obviously not now :S Eu sei o quanto tu te importas e eu não estou braba. Apensa frustrada que nem tu. Tu parace não saber o quanto EU ME IMPORTO. Talvez porque eu estava esperando o momento certo de dizer, que obviamente não é este.

Eu de novo: I wanted to say that I LOVE YOU right in front of your eyes between your arms! Eu queria dizer EU TE AMO olhando nos teus olhos e no meio dos teus braços.

Ele: My heart just dropped!!! Meu coração caiu!!


ps: não reparem nas traduções. Mas acho que ficam um pouquinho melhor que as do google "tradútor"!