19 de dezembro de 2011

despedida 4

3 de julho de 2010.

Apesar da minha mala feita no canto do quarto, passamos aquele sábado inteiro como se fosse um dia normal, na vida de um casal normal. Eu tinha arrumado as minhas coisas um dia antes. "Não quero te ver fazendo a mala", ele tinha pedido.

O Jared fez café da manhã, aquele mesmo dos filmes que vocês estão imaginando. Comemos e saímos de casa. Estar dentro do apartamento era um exercício difícil para mim. Só não mais difícil do que entrar no apartamento. Nos últimos dois dias, eu enchia os olhos de lágrimas toda vez que entrava no apartamento, não pelo lugar, mas pelo que representava. A vida que eu poderia ter ali com ele, mas não tinha e nem teria. A vida que não era minha. Eu não tinha tempo. A gente não tinha tempo. Era um vazio de coisa não-feita, de vida não vivida, do que poderia ser e não era. 

Era o mesmo vazio que eu sentia quando a gente andava no meio das pessoas, ele segurando a minha mão, no meio daquela gente que não era a minha gente, que falava aquela língua que não era a minha língua, num país que também não era o meu país. A única coisa que eu tinha, era ele. E, ao mesmo tempo, ter ele significava deixar de ter tantas outras coisas que eu queria, como a minha gente, a minha língua e o meu país. Não, eu não sou nacionalista, mas era uma questão de identidade, de raíz. Eu queria ficar, no entanto, eu tinha uma urgência de ir, de encontrar o que era meu de verdade, de me encontrar.

De tarde, fomos para a piscina do condomínio. Lembro que conversamos sobre o passado, que era seguro e imutável. Tínhamos medo de falar no futuro e o presente estava prestes a acabar. Naquela noite, fomos jantar num restaurante de comida mexicana pertinho dali. Comi meus tacos à beira do choro. O dono me olhou intrigado, de certo achando que a guacamole era tão boa que eu tinha até me emocionado. Na verdade, já estava ficando impossível ignorar a montanha russa de sentimentos na qual o meu organismo tinha se transformado.

Entramos no apartamento, dessa vez não teve jeito. Era provavelmente a última vez que eu entrava naquele lugar, que tinha fotos minhas na geladeira, mas não era meu, nem nosso, era dele. Desabei e ele nem conseguiu me consolar, sentou do meu lado e chorou junto comigo. Choramos. 

O meu voo de volta para a Philadelphia era só às onze da noite. Eram oito horas e a gente não sabia mais o que dizer ou fazer. Literalmente sentamos e choramos até umas nove, quando fomos para o aeroporto. No caminho, ele me disse: "If you ever get back to United States, would you please let me know? I will want to hear from you, no matter what."

[Se algum dia tu voltares para os Estados Unidos, tu por favor poderia me avisar? Eu vou querer saber de ti, não importa  o que aconteça.]

Eu lembro dessa frase como se fosse hoje, porque retumbou na minha cabeça por muito tempo. Acho que mesmo se eu passasse mil anos sem voltar para os Estados Unidos, o dia que eu voltasse, eu ia lembrar dele falando isso, olhando para a estrada e para mim, querendo ter certeza de que eu tinha entendido, já que eu não respondia nada verbalmente. Fiz que sim com a cabeça, me sentindo a pior pessoa do mundo por não ter nada de bom para dizer para ele. Eu estava indo embora, sem data para voltar.


6 comentários:

  1. Que post triste!
    Nossa, triste demais...
    Quero um sobre o primeiro beijo!

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  2. foi triste mesmooo! O primeiro beijo foi na balada mesmo, lá no comecinho do blog. O meu estado alcoolico não me permite lembrar dos detalhes. :S

    Nada romântico, né? Mas afinal de contas este é um conto de fadas real e moderno :P

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  3. Um ano e cinco meses atrasada, chorei com vocês!!

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  4. Antes tarde que nunca, chorei tbm! oh god. Ainda bem que já sei o fim desta comédia romântica :D

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  5. Respostas
    1. por isso que eu simplesmente não leio, Annita! hahaha já vou sair dessa página correeeendo! beijokas

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