24 de janeiro de 2012

Brasil

Em algum momento daquele 2010, eu prometi para a minha mãe que estaria em casa no meu aniversário: primeiro de setembro. Essa era a única certeza que eu tinha em tempos tão instáveis. Comprei  a passagem de volta para o dia 30 de agosto.

30 de agosto chegou com uma manhã tranquila. Acordei cedo para me despedir da Cindy antes de ela ir para o trabalho. Os pais dela que iriam me levar até o aeroporto. Choramos um choro bom, lágrimas de carinho e cumplicidade que a gente guarda até hoje. Por mais que ela quisesse que eu ficasse mais, ela sabia que a minha hora de ir embora tinha chegado e que mais cedo ou mais tarde íamos nos ver de novo.

Chegou a hora. Pedi para Mamá (mãe da Cindy que eu adotei descaradamente) um remédio para dormir no avião. Ela me deu um comprimido em 4 pedaços e disse para eu tomar um quarto e se eu não dormisse em 30 minutos era para tomar mais outro. Se soubesse que a Mamá e o Papá iam ficar chorando no portão de embarque, eu já teria tomado aquele tranquilizante antes mesmo de sair de casa. Eu não aguentava mais dar tchau para as pessoas que eu gostava e uma ansiedade enorme tomava conta de mim.

Se a melhor parte da viagem é a volta para casa, a pior, com certeza, é a despedida.

Fui de Lyon para Roma em um vôo rápido. Já em Roma não foi nada rápido e sim intermináveis 5 horas de espera. Lá estava eu, sozinha, sem internet, sem celular, sem relógio, sem a porra de um livro para ler. Finalmente, achei uma máquina bizarrísima para usar a internet, que engoliu meus últimos euros e travou com meu e-mail aberto. O faxineiro do aeroporto, chamado Luigi, é claro, me emprestou o celular para eu ligar para o serviço de manutenção da gerigonça e assim fui socorrida do meu tédio.

Aos poucos, brasileiros de todos os cantos foram chegando. Falantes, espaçosos, brasileiros. Entrei no avião e tomei logo três quartos do comprimido da Mamá. Só não tomei inteiro porque fiquei com medo e perder o café da manhã a bordo. Não tinha ninguém do meu lado, dormi o sono dos anjos, nas nuvens por  dez horas. Acordei, na hora do café da manhã, já quase em Guarulhos.

De lá peguei o meu último vôo para Porto Alegre. Não tinha Cristo nem Rivotril que me acalmasse. Depois  de 724 dias longe, eu estava voltando para casa. Ainda bem que o casal que veio do meu lado estava disposto a me ouvir (ou não) e eu vim falando pelos cotovelos o percurso inteiro. Porto Alegre, cheguei!

Por um instante, eu achei que era dona do mundo, dona do destino, dona da vida, dona de mim. Eu era a pessoa mais forte que existia. Eu estava em casa e logo em seguida eu teria todas as respostas que eu queria. Mas as certezas me escorreram entre os dedos...

Eu estava em casa e não queria ir embora. Eu estava em casa e não estava pronta para esquecer o Jared. Apples and oranges. Não dava para escolher entre uma coisa e outra. Família era família, era para sempre. Namorado era namorado, era tudo ou nada. E ali, naquele 31 de agosto, começou o meu alívio e o meu tormento.

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