25 de janeiro de 2012

a caixa

Setembro de 2010.

No Brasil, fora toda a pressão psicológica e a enxurrada de perguntas, a única coisa que mudava significativamente para nós era o fuso horário, de 9 para 4 horas. Estávamos mais perto, apesar de ainda estarmos muito longe. E muito longe de saber se um dia estaríamos perto de novo. Tudo isso, se não fosse por uma caixa. 

Na véspera de deixar os Estados Unidos, acabei enchendo uma caixa de coisas que não cabiam na mala. Não tinha jeito. Deixei dinheiro e o endereço da minha casa bonitinho  para que a minha hostmom (Angie) colocasse a caixa no correio para mim. Acontece que o correio cobrou uma fortuna para enviar a tal caixa, uma fortuna que meus míseros 200 dólares não cobriam. Então pedi para ela esperar um pouco até que eu decidisse entre mandar mais dinheiro do Brasil ou mandar a caixa pra minha prima, que mora na Filadélfia.

Foi aí que ele começou a dizer, "manda entregar aqui em casa que eu levo as tuas coisas quando eu for para o Brasil". Assim, o destino da caixa, era a nossa maneira de falar sobre a vinda dele ao Brasil de Meu Deus. Eu não queria me comprometer, não queria fazer ele se despencar de lá para me ver e não ter coragem de dar continuidade ao nosso relacionamento. Além disso, eu não tinha ideia de como seria receber ele na minha casa e qual seria a reação da minha família, que fazia questão de não falar no assunto Jared. 

Eu tinha uma enorme preocupação em não dar falsas esperanças, não criar expectativas.  Era tudo muito novo, com muita coisa em jogo. Acho que foi nessa época que eu comecei a desenvolver esse sentimento de proteção. Essa coisa de não ter medo de sofrer, pois afinal de contas, terminar namoro até emagrece, mas de ter muito medo de fazer ele sofrer. Eu não achava justo e ele não merecia. Porque se ele merecesse, eu confesso que ia achar lindo.

A paixão e aquela vontade louca de estarmos juntos foi abrindo espaço para esse sentimento mais maduro e selfless (sem egoísmo), onde eu pensava mais nele do que em mim e ele pensava mais em mim do que nele, também se sentido culpado por ter me colocado nessa sinuca de bico. Ele cogitou várias vezes terminar o namoro para terminar com a minha angústia. E eu também. Mas nenhum de nós teve essa coragem.

Conversamos abertamente sobre isso tudo. Brigamos por motivos sérios e bobos. Desligamos os nossos computadores sem chance de reconciliação. Trocamos e-mails desaforados e desesperados, na busca por uma válvula de escape, que nos livrasse de um sentimento que nos fazia reféns de uma situação conflituosa.

Noites de conversa a fora e chegamos a conclusão de que merecíamos nos ver mais uma vez, nem que fosse pela última vez. Ele entendeu que vir até o Brasil não representava nenhuma garantia ao nosso futuro. Ele viria para trazer as minhas coisas e a gente partiria de lá, sem promessas. Aliás essa era a minha premissa sempre: sem promessas. E assim foi. Um viva para a minha caixa, a melhor desculpa de todos os tempos.


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