20 de janeiro de 2012

um terço de fé

Eu sei que esse blog tá parecendo a novela das 6, mais chato que a filha chata da chata da Ana. Mas eu, na minha condição irremediável de jornalista, tenho mania de ser fiel aos fatos. E esse período foi chato pra caralho, mas vamos à história.

Antes de eu ir para os Estados Unidos, a minha mãe me emprestou um terço. "Esse terço uma amiga minha me trouxe da Itália, por isso não vou te dar mas quero que tu leves para te proteger", disse ela, num rompante religioso. Minha mãe só vai a igreja basicamente para batizados e casamentos, mas quando se trata da proteção dos filhos, ela tem uma fé do tamanho do mundo.

Levei o tal terço da Itália para a América do Norte. Guardei-o na gaveta do criado mudo e lá ele ficou mudo por quase dois anos. Na França, o terço virou companhia nas noites de insônia. Eu precisava mesmo acreditar em alguma coisa. Até me aventurei na igreja nesse dia aqui.

A Cindy, amiga francesa que me abrigou, tem uma prima turismóloga. Lucie tirava folgas durante a semana. Nesses dias, ela gostava de me levar para museus, castelos, cenários da revolução, plantações de uva e  mercados a céu aberto. Lucie era a minha babá, que me contava histórias de reis e rainhas, soldados e freiras, princesas e plebeus. 

Numa dessas viagens, saímos de Valence rumo a Béziers, passando por Nyons, Carpentras, Avignon, Nîmes, e Montpellier. Passamos a noite num hotelzinho simpático em Béziers, praia na beira do Mar Mediterrâneo. Obviamente, eu esqueci o terço da minha mãe lá. Literalmente, 20 dias antes de voltar para casa eu tinha perdido o terço que a amiga dela tinha trazido da Itália. Eu estava ferrada com Deus e com  a minha mãe também.


Foi nessa mesma noite, que cai aos prantos no restaurante, olhando para a minha salada de salmão. Tudo culpa da Ana Carolina, que cantou uma versão de Outra Vez do Rei Roberto Carlos, que não sei porque cargas d'àgua tocou no meu ipod naquela tarde. A música ficou trancada no meu peito, numa época em que eu achava que o Jared seria a "saudade que eu gosto de ter". O amor é mesmo uma coisa brega, apesar de a música ser linda de doer, e doía.


No outro dia, pós Ana Carolina, depois de uma boa noite de sono, passamos em Narbone, Carcassone e esticamos a viagem até Toulouse. Não tem como não esquecer os problemas em Toulouse. Coincidentemente ou não, uma carreata seguia o carro de uma noiva, que acenava para os turistas sorridente. Todos buzinavam pelas ruelas ao redor do Capitol. É tradição, me explicou a Lucie.


Voltamos para Valence no dia seguinte e a Lucie moveu mundos e fundos para que o hotel achasse o meu terço e mandasse entregar. Acharam. Mandaram. Quando cheguei no Brasil, no final daquele mês, fui orgulhosa devolver o terço da minha mãe. Ela me disse, "pode ficar com ele para ti". O Jared acabou apelidando-o de "worrying beads", pois toda vez que eu ando com ele pendurado, é porque tem alguma coisa me chateando. A mais pura verdade.

Um comentário:

  1. Novela das 6? Eu aposto mais em um MARAVILHOSO livro de cabeceira!!! já pensou nisso, amada? =D Assim você desiste da bicicleta, casa com o Jared (depois de ler o blog já me sinto amiga íntima dele hihihi) e faz aquilo para o qual estás predestinada: contar histórias, as histórias que só acontecem com a Fabih ou àquelas que só a Fabih consegue descrever!

    Ler teu blog é terapêutico, emocionante e sempre divertido! Te amo demais e estou morrendo de saudade!

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