16 de fevereiro de 2012

soluções alheias

Enquanto as minhas amigas, total por dentro da situação, davam pitacos fundamentados, os curiosos desavisados sempre tinham uma solução mirabolante na ponta da língua.

- E aí, Fabi, vai embora então?
- Pois é, não sei, ainda estou pensando.
- Ah vai sim, imagina morar nos Estados Unidos, bem melhor que aqui. Vai logo!
- Eh, então, acontece que aqui eu tenho a minha família, meus amigos de infância, de escola, de faculdade, tenho o meu diploma que não vale lá, a minha carreira, a minha língua... a minha vó, o meu cachorro, o meu passarinho...
- Ah que complicado mesmo. Então, por que ele não vem pra cá??
- É que ele não fala português e seria difícil conseguir um emprego e se adaptar.
- Ele podia dar aula de inglês, né?
- Não, ele não é nem professor. Tu conseguiria sair por aí dando aula de português? Isso sem falar no salário baixo. Eu não consigo nem me sustentar sozinha ainda. A vida aqui não é fácil.
- Nossa, é mesmo. Ah! Então termina esse namoro, logo logo tu arruma outro!

^^
Fácil, fácil assim.


15 de fevereiro de 2012

na busca por uma resposta

Janeiro de 2011.

Não sei se foi Deus, Buda, Allah, Oxum ou Oxalá, mas no dia 3 de janeiro arrumei um bico na Rádio Gaúcha, em Porto Alegre. Uma verdadeira benção financeira na minha vida cheia de gastos. Não era bem como jornalista, mas já estava valendo. Fui contratada por seis meses para escrever boletins informativos para uma concessionária de caminhões. oO

Eram dez boletins por semana e eu trabalhava de casa, da praia, de qualquer canto do mundo que tivesse internet. O que me dava tempo suficiente para surtar sobre o meu futuro e cair em contradição praticamente todos os dias.

Quanto mais eu queria a minha carreira, menos eu podia ter ele. Quanto menos eu podia ter ele, mais eu queria ele. Por que que a gente é assim, hein?

Aí que num mesmo dia, eu resolvi mandar mais currículos para Deus e todo mundo no Brasil, agendar minha entrevista de visto na Embaixada Americana, comprar livros para fazer um projeto mestrado aqui, fazer vestibular e bisbilhotar nos sites das universidades de lá. No dia seguinte, eu procurei uma psicóloga.

Se vocês não perceberam, eu não tinha nenhuma noção do que eu estava fazendo com a minha vida. E, como um tiro no escuro, eu comecei a fazer tudo que eu podia, sem conseguir me focar em nada. Eu apostei todas as minhas fichas e estava disposta a ir atrás do que desse certo.  Acontece que eu não estava feliz. Eu não queria decidir a minha vida no cara ou coroa. Eu queria uma convicção.

Enquanto eu não arrumava uma convicção, eu arrumava mais empregos. Em março, comecei a trabalhar em tempo integral para um jornal local e semanalmente em uma assessoria de imprensa. Assim, o único tempo que eu tirava para pensar no meu enrolo emocional era mesmo no consultório da minha psicóloga e no sofá na casa da minha amiga Laura, onde eu só parava de falar, para me encher de qualquer guloseima que ela me dava para comer.

Pobres ouvidos de Laura, aqui representando todas as minhas amigas do coração que pacientemente me ouviram e meteram o bedelho na minha vida, pensando sempre no meu bem-estar  e em férias em Las Vegas.

Do outro lado da América, o Jared esperava o meu turbilhão de sentimentos passar. Afinal de contas, eu tinha o direito de estar mesmo confusa. Ele sabia o que ele queria. Enquanto eu oscilava, ele permanecia ali, imóvel. O sentimento dele era a única coisa estável na minha total instabilidade. Ele era um chão, um rumo. Ele era o meu curinga e a minha carta na manga. Ele era a minha certeza no final do dia; e eu não podia me dar o luxo de ficar sem aquele norte.


13 de fevereiro de 2012

casa ou não casa?

O mês de dezembro de 2010 passou como todos os meses de dezembro de todos os anos. Rápido. Ele tinha ido embora, eu não sabia o que 2011 nos reservava, mas os dias passavam indiferentes a inconstância da minha vida. O calendário não estava nem aí para mim.

Na semana do Natal, recebi um envelope com as nossas fotos aqui, mais um cartão fofo, com 500 dólares dentro - "para ajudar nas despesas do visto e tomar uma 'skol' com as girls". Sorrateiro. O legítimo bate e assopra. Falou em visto e logo logo falou em cerveja com as amigas.

Ele sabia que para eu voltar aos EUA eu precisava de um novo visto, o que significava ter tempo e dinheiro para ir a São Paulo e sobreviver à entrevista no Consulado Americano. Um empecilho que eu colocava mesmo que silenciosamente. Nunca tínhamos falado logisticamente sobre eu voltar para lá. Era uma coisa que eu considerava, mas evitava falar sobre. Enquanto eu calava, ele agia. Rápido que nem dezembro. Isso é uma coisa determinante no nosso relacionamento: ele está sempre um passo à minha frente. O que pode ser assustador e ao mesmo tempo muito sedutor.

Burocraticamente falando, ou eu tirava um visto de turista, que me dava direito a ser turista e nada mais ou eu tirava um visto de estudante, que me permitiria apenas estudar. Eu sabia que um visto de estudante era caro e complicado. Precisaria traduzir documentos, ser aceita em uma universidade e comprovar renda para me manter sem trabalhar. Até daria para juntar os trocados dos meus pais para comprovar a tal renda,  mas óbvio que eu não poderia e nem gostaria de ficar sem um trabalho legalizado. Estaca zero.

Para eu poder estudar e trabalhar lá, só casando mesmo! Assim que surgiu esse dilema, esse blog e a palavra casamento na minha boca. Não é que eu não quisesse ou não queira me casar, eu só não queria ter que me casar para poder namorar o meu namorado e ter uma vida normal. Eu não queria essa imposição para mim e muito menos impor isso a ele. Ninguém merece ter que arrastar o bofe pro cartório sob pena de nunca mais me ver na vida. Não era assim que tinha que ser. Todo mundo tem o direito de enrolar todo mundo quando o assunto é subir no altar.

Eu sentia que a gente tinha sido prejudicado no quesito enrolar. E meu senso de justiça, achava que a vida estava sendo injusta. Mas quem de nós vai um dia entender a vida? Casamento é coisa séria demais. Ou pelo menos era para ser. Aí vocês vão me dizer que morar junto é praticamente a mesma coisa. E praticamente é mesmo, mas teoricamente não. Casamento é casamento, vai ser sempre casamento e eu não queria de jeito nenhum.

Nesse clima chegou o Ano Novo. Um novo ano apesar de ser o anoitecer de uma noite e um amanhecer de um dia carrega consigo uma carga explosiva de expectativas, mesmo não ditas, elas estão ali no novo ano que se aproxima.

Eu não sabia para que lado correr e na chegada de 2011 foi fechar os olhos e entregar nas mãos de Deus, Buda, Allah, Oxum, Oxalá, e quem mais quisesse assumir a pendenga. Se fosse para eu ser infeliz aqui que me mandassem pra lá, se fosse para ser infeliz lá que me deixassem aqui. Eu decidi ficar imóvel enquanto alguém tomava esse decisão por mim. 


8 de fevereiro de 2012

português infame

Minha mãe: - Jared, como tu tá bonito.
Ele: - Obrigada, Valéria.
Eu: - Babe, não é obrigada. É obrigado.
Ele: Mas tu disse que quando era mulher falava obrigada e homem falava obrigado.

^^

Ele: como que se diz I'm sorry? 
Eu: Des-cul-pa.
Ele: Desculpo??

^^

Ele: Tá, e como se diz excuse me?
Eu: Com li-cen-ça.
Ele: Com licenço?

^^

6 de fevereiro de 2012

despedida 5

Dezembro de 2010.

Para ser exata, sábado, 4 de dezembro de 2010. Acordamos exaustos no dia em que a gente não queria acordar. Tinha sido um piscar de olhos, um relâmpago. A semana tinha passado rápido demais. Corremos pra lá e pra cá, sempre juntos mas quase nunca a sós. A gente queria mais tempo. Tempo que a gente não tinha.

Pegamos um ônibus de Pelotas para Porto Alegre e fomos para o aeroporto. Lá ainda tinha o stress GOL Linhas Aéreas. Felizmente as malas estavam lá, intactas. Sim, só recuperamos a bagagem horas antes de ele ir embora. Parece mentira mas não é. Oi, Brasil?

Procuramos um cantinho do Salgado Filho e fizemos a transferência de todas as minhas coisas que ele tinha trazido. Inclusive um botão de uma blusa minha e um sapato que eu tinha deixado no lixo do apartamento dele. Ele trouxe o bichinho, reformei e uso até hoje.



Além dos meus álbuns de fotografia, roupas e sapatos que estavam na tal caixa que eu deixei nos EUA, ele me trouxe alguns presentes curiosos:

- Duas latas de atum, porque um dia eu falei que o atum de lá é melhor que o atum daqui;
- Uma caixa de Cinnamon Toast Crunch, meu cereal preferido;
- Uma caixa de antialérgicos, que não dão sono, para a minha rinite;
- Uma caixa enorme de lenços para assoar o nariz, também para a minha rinite;
- Cinco camisetas velhas dele para eu dormir;
- Seis pares de meias, porque eu uso tênis sem meia e fico com chulé;
- Todas as temporadas de Friends. :D

Tem como resistir a alguém que conhece a gente tão bem? Eu sentia que ele me conquistava aos poucos, que nem um prato de comida quente que, apesar da fome, a gente come pelas beiradas. E dava certo, porque os poucos momentos que a gente tinha, apesar de singelos, eram tão intensos que me preenchiam na ausência dele. Eu queria mais. Eu tinha fome daquele carinho todo. Além de gostar de mim, ele se dedicava.

E também por isso a despedida foi difícil. Não é fácil ver a pessoa que a gente gosta passar por aquele portão e sair do nosso campo de visão sem que a gente nada possa fazer a não ser assistir. Não tínhamos data para reencontro. Dependendo do andar da carruagem, poderia de nem haver um reencontro.

Em outras palavras, aquela podia ser (de novo) a última vez que nos víamos. Pior do que isso, aquela podia ser a última vez que eu via ele, chacoalhando as chaves do carro, que o funcionário da alfândega fez ele tirar da mala no raio-x. Essa incerteza era a corda no meu pescoço. Eu estava de novo com as cartas na mão, sem saber como jogar aquele jogo.

5 de fevereiro de 2012

ponte rodoviária

Novembro de 2010.

Depois de passearmos o sábado inteiro pela capital dos gaúchos, com direito à Casa de Cultura Mário Quintana, pôr do sol no Guaíba e cerveja gelada na Cidade Baixa, no domingo pela manhã pegamos o ônibus para Encantado, cidade onde moram os meus pais.


No interior, o que mais se faz é comer. Assim, o Jared foi submetido a um senhor regime de engorde. A minha mãe já estava esperando ele com bifes suculentos e o meu pai fez um feijão de deixar os vizinhos com inveja. Até porque a comida é a melhor forma de socialização depois da linguagem. Como ele não falava a nossa língua, comia a nossa comida. E lambia os beiços. A noite ainda fomos em um rodízio de pizza. Foi quando ele aprendeu a dizer sim em português.  

Na minha casa, só a minha irmã fala inglês e ela tinha ficado em Porto Alegre, então tudo que era dito, precisava ser traduzido por mim. O bom de tudo isso é que eu controlava todo o fluxo de informações entre meus pais e o meu então namorado, mas ao mesmo tempo era muito cansativo, com o acréscimo da tensão das primeiras impressões. Além disso, eu não podia me descuidar dele ou me afastar por muito tempo, o que é muito esquisito, já que ele é que normalmente toma conta de mim.

Num almoço, me distraí e o meu pai resolveu mostrar para ele um pedaço de charque (ainda salgado). O charque estava no feijão do dia anterior e o Jared tinha adorado. O meu pai deve ter dito em bom português que era só para olhar, mas óbvio que como qualquer criança de dois anos que não dá a mínima para o que os adultos falam, o Jared tascou-lhe o charque na boca. Nisso a minha mãe começou a gritar: "ele comeu o charque, cospe, cospe!" Eu gritava junto: "cospe, cospe"! E ele nos olhava com olhos arregalados, sem conseguir engolir e nem cuspir o tal do charque. "It's ok, spit it out". [Não tem problema , pode cuspir].

Depois do fiasco, quase morremos de tanto rir e a história virou lenda, junto com os gritos do meu pai dizendo para ele A-BA-CA-XI com CA-NE-LA e ele me olhando com cara de S.O.S.

Passamos dois dias entre os morros do Vale do Taquari e o Jared conheceu esse lugar Encantado que a minha família mora. Ele não queria ir embora, mas ainda tínhamos que dar um pulinho em Pelotas, onde nasci e cresci. Eu queria que ele conhecesse o resto da minha família e os meus amigos da Faculdade.


Pegamos uma carona até o aeroporto de Porto Alegre, onde em vão tentamos recuperar as malas, ainda perdidas. Disseram que as malas estariam lá, mas não estavam. Briguei, xinguei, bati pé. Nada. A irritação com os atendentes inúteis da Gol acabou se alastrando para nós dois, que acabamos brigando também.

As três horas de ônibus que separam Porto Alegre de Pelotas nos deram tempo para acalmar os ânimos. Chegamos na Princesa do Sul na quarta-feira de noite, jantamos a comidinha delícia da Vó e fomos para um barzinho no Porto. O Jared vestido com a camisa do Grêmio, presente da minha mãe. Por falta de opção de roupa e por falta de oportunidade de escolher o time, ele virou tricolor na marra.

Os dias se dividiram entre passear pelos pontos turísticos, ir jantar com a família e sair com os amigos. Dias, estes, que passaram voando. A despeito de todos os lugares bonitos que Pelotas esconde, o lugar preferido do Jared é o camelódromo ou open market, como ele gosta de dizer.

Tudo muito lindo, tudo muito bom, mas já estava chegando ao fim, de novo.


4 de fevereiro de 2012

aeroporto 5

Novembro de 2010.

Os dias que se seguiram à decisão de ele vir ao Brasil foram todos contados. Um por um. A contagem regressiva nos mastigava que nem uma vaca rumina o pasto. Não passava nunca. Ele ficava de um lado para o outro atrás de visto, compra de passagem e compra de presentes. Eu me esquivava de propostas de trabalho pouco promissoras e tentava organizar a minha vida entre o antes e o depois da visita dele.

Até que o Thanksgiving*thanks God, chegou: 25 de novembro de 2010. O voo dele saia de Las Vegas a tarde, fazia uma conexão em Miami, depois São Paulo e por fim Porto Alegre, na tarde seguinte. Um dia antes ele tinha me dito, "vou checar só uma mala e levar a menor comigo no avião". Eu, que paguei muitos dos meus pecados em aeroportos, disse para ele: "não, não, faz check in das duas! Quanto menos tu carregar contigo, melhor".  Maldita hora que eu abri a minha boca grande. Ele ainda me disse: "e se as minhas malas não chegarem?". Argumento ao qual eu sabiamente respondi: "imaginaaa, vão chegar sim." Preciso dizer que não chegaram?

Pois bem. Na manhã do dia 26 daquele mês, estou no ônibus de Encantado para Porto Alegre indo para o aeroporto, quando ele me liga de São Paulo. "Perderam as minhas malas, ninguém fala inglês comigo..." Pronto, começamos bem, eu pensei, desfazendo o meu sorriso momentâneo com a ligação dele. Respirei fundo e disse para ele pegar o voo para Porto Alegre que a gente ia dar um jeito quando ele chegasse aqui.

No portão de desembarque do Salgado Filho, meu nome era ansiedade, até que vi ele no carrossel de bagagens por uma fresta. Abanei e ganhei um sorriso de volta. Ele ainda procurou pelas malas, numa tentativa em vão. Mesmo assim ele veio ao meu encontro e cumpriu o prometido. Me apertou bem forte, me levantou do chão e me deu um "big smooch" - um beijão. E azar das malas. Estávamos juntos.


Ainda no aeroporto, fomos no guichê da GOL, que por sinal deixou muitíssimo a desejar no atendimento. Só não foi pior que American Airlines que, em Las Vegas, etiquetou as malas errado e mandou as mesmas para a República Dominicana e, em São Paulo, confiscou as mesmas etiquetas erradas, mandando ele para Porto Alegre sem nenhum comprovante de check in, nenhum formulário de reclamação, nenhum número para rastreamento de bagagem. Nada. Uma confusão danada, que merece um livro e não um post. No entanto, pouparei vocês dessa dor de cabeça.

Saímos de lá no vácuo, tínhamos que cruzar os braços e os dedos e torcer para que achassem as malas que não eram responsabilidade da American Airlines, porque o destino final era com um voo da Gol e, também, não eram responsabilidade da Gol, pois não tínhamos os comprovantes de check in com a American Airlines.  Céus!

Fomos para o hotel, largar a minha mala e de lá fomos para o Shopping. Afinal, o meu namorado não tinha nem uma muda de roupas! Encontramos a minha irmã e o namorado dela por lá, mais tarde ainda fomos no Boteco Dona Neusa com a Jé e o Kauê. Queríamos que o gringo tivesse uma imersão de Brasil logo no primeiro dia. Tomou Caipirinha e comeu coxinha de galinha no meio de uma roda de samba. Ele sobreviveu ao tratamento de choque e toda aquela longa espera, mais problemas no aeroporto e falta de cuecas veio bem a calhar.

*Dia de Ação de Graças