5 de fevereiro de 2012

ponte rodoviária

Novembro de 2010.

Depois de passearmos o sábado inteiro pela capital dos gaúchos, com direito à Casa de Cultura Mário Quintana, pôr do sol no Guaíba e cerveja gelada na Cidade Baixa, no domingo pela manhã pegamos o ônibus para Encantado, cidade onde moram os meus pais.


No interior, o que mais se faz é comer. Assim, o Jared foi submetido a um senhor regime de engorde. A minha mãe já estava esperando ele com bifes suculentos e o meu pai fez um feijão de deixar os vizinhos com inveja. Até porque a comida é a melhor forma de socialização depois da linguagem. Como ele não falava a nossa língua, comia a nossa comida. E lambia os beiços. A noite ainda fomos em um rodízio de pizza. Foi quando ele aprendeu a dizer sim em português.  

Na minha casa, só a minha irmã fala inglês e ela tinha ficado em Porto Alegre, então tudo que era dito, precisava ser traduzido por mim. O bom de tudo isso é que eu controlava todo o fluxo de informações entre meus pais e o meu então namorado, mas ao mesmo tempo era muito cansativo, com o acréscimo da tensão das primeiras impressões. Além disso, eu não podia me descuidar dele ou me afastar por muito tempo, o que é muito esquisito, já que ele é que normalmente toma conta de mim.

Num almoço, me distraí e o meu pai resolveu mostrar para ele um pedaço de charque (ainda salgado). O charque estava no feijão do dia anterior e o Jared tinha adorado. O meu pai deve ter dito em bom português que era só para olhar, mas óbvio que como qualquer criança de dois anos que não dá a mínima para o que os adultos falam, o Jared tascou-lhe o charque na boca. Nisso a minha mãe começou a gritar: "ele comeu o charque, cospe, cospe!" Eu gritava junto: "cospe, cospe"! E ele nos olhava com olhos arregalados, sem conseguir engolir e nem cuspir o tal do charque. "It's ok, spit it out". [Não tem problema , pode cuspir].

Depois do fiasco, quase morremos de tanto rir e a história virou lenda, junto com os gritos do meu pai dizendo para ele A-BA-CA-XI com CA-NE-LA e ele me olhando com cara de S.O.S.

Passamos dois dias entre os morros do Vale do Taquari e o Jared conheceu esse lugar Encantado que a minha família mora. Ele não queria ir embora, mas ainda tínhamos que dar um pulinho em Pelotas, onde nasci e cresci. Eu queria que ele conhecesse o resto da minha família e os meus amigos da Faculdade.


Pegamos uma carona até o aeroporto de Porto Alegre, onde em vão tentamos recuperar as malas, ainda perdidas. Disseram que as malas estariam lá, mas não estavam. Briguei, xinguei, bati pé. Nada. A irritação com os atendentes inúteis da Gol acabou se alastrando para nós dois, que acabamos brigando também.

As três horas de ônibus que separam Porto Alegre de Pelotas nos deram tempo para acalmar os ânimos. Chegamos na Princesa do Sul na quarta-feira de noite, jantamos a comidinha delícia da Vó e fomos para um barzinho no Porto. O Jared vestido com a camisa do Grêmio, presente da minha mãe. Por falta de opção de roupa e por falta de oportunidade de escolher o time, ele virou tricolor na marra.

Os dias se dividiram entre passear pelos pontos turísticos, ir jantar com a família e sair com os amigos. Dias, estes, que passaram voando. A despeito de todos os lugares bonitos que Pelotas esconde, o lugar preferido do Jared é o camelódromo ou open market, como ele gosta de dizer.

Tudo muito lindo, tudo muito bom, mas já estava chegando ao fim, de novo.


Um comentário:

  1. Muito bom, Fabih!

    Ri sozinha aqui!! Adorei a parte do S.O.S!

    Beijoka.

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