30 de março de 2012

aniversário de namoro

17 de setembro de 2011.

Como vocês sabem, a gente vive mais separado do que junto. Então nunca comemoramos um aniversário de namoro. O dia 17 de setembro de 2011 caiu num sábado e o Jared resolveu fazer algo especial. O nosso aniversário mesmo é 17 de abril, mas por que não comemorar mês a mês? Faz de conta que a gente ainda está em High School.

Ele reservou uma mesa num restaurante chiquérrimo em Las Vegas, o Top of the World. O lugar fica num dos últimos andares de um prédio, com paredes de vidro e gira. Sim, o restaurante faz uma volta completa a cada 80 minutos, assim os clientes têm uma vista da cidade do pecado por todos os lados. E não ficam tontos, eu juro.

Skydivers, pessoas que pulam de prédios e que não são suicídas, despencam através do vidro, enquando você aprecia o seu prato principal. Um luxo.

Chegamos na recepção e a moça perguntou se era uma ocasião especial. O Jared disse que era nosso anniversary. O casal atrás de nós na fila disse: - o nosso também. Respondemos, simpáticos, "ai que legal, blábláblá". Aí eles perguntaram: quantos anos de casados? A gente se olhou e disse: não, não, um ano de namoro (pegava mal dizer um ano e cinco meses, né?). Eles murcharam, acho que já estavam casados há 12 anos. E eu pensei com meus botões por que será que o tema casamento parece estar sempre no menu do dia.

Depois da janta ótima e alguns "bons drink",  fomos assistir ao espetáculo Love do Cirque du Soleil, que faz uma releitura da trajetória dos Beatles. Lindo, daquelas coisas lindas que enchem a alma da gente. Uma noite completa, sem espaço para o futuro. Uma noite feita do agora.

No domingo, acordamos cedo e fomos finalmente fazer uma trilha no Red Rock Canyon. Existem mais de vinte trilhas diferentes. Nós optamos por uma de dificuldade média, exceto pelo fato de que o meu namorado fez questão de sair da trilha, o que deixou a pessoa compulsiva aqui achando que ia virar um episódio do I shouldn't be alive. Programa do Discovery Channel, onde pessoas que sobreviveram à condições adversas extremas relatam suas experiências. Todas as historias começam com "inocentes" passeios no bosque. Eu andava assistindo a muita TV.



Sobrevivemos, mas a vida já não tinha o mesmo gosto da noite anterior. Eu estava incomodada de novo. Era 18 de setembro, o que me deixava apenas 23 dias para dar um rumo na minha existência. A minha vida virou uma contagem regressiva ao contrário, mas ao mesmo tempo, ninguém mais do que eu queria dar um fim nessa agonia. 

Bom, vocês já devem estar cansados desse nhénhénhé, né? Então, no próximo post prometo fingir que eu não sentia nada disso. Vou contar como foi a nossa road trip pra Califórnia! Até lá!


28 de março de 2012

cabelo liso x cavanhaque

Um dia, não sei porque sim nem porque não, ele disse:

- Babe, eu nunca te vi de cabelo liso.
- É verdade, qualquer dia desses eu faço uma escova em casa.

Fiz a tal escova e ainda dei uma retocada com a chapinha. Fazia anos que eu não usava uma chapinha, mas o Jared tinha me dado um secador que vinha junto com uma chapinha e uma escova. Aí usei o kit todo. Quando ele chegou em casa, me olhou com uma cara de dúvida e ficou mudo.

- Que foi, não gostou?
- É.. ficou diferente.
- Tu achou feio, né?
- Não, não tá feio, só tá di-fe-ren-te.
- A-hã.
- Tá bonito. Tu é bonita de qualquer jeito.
- A-hã. Obrigada (ainda desconfiada).

Pausa

- Mas agora que eu já sei como fica, não precisa alisar de novo, tá?
- hahaha, eu sabia!!!

^^

Passado um tempo deste episódio, chegou a minha vez de dar o troco.

- Babe, nunca te vi sem esse cavanhaque.
- Eu fico com cara de guri.
- Ah mas tira, quero ver como fica.
- Ok, ok.

No dia seguinte, sai ele do banheiro sem cavanhaque.

- Tá bom, já vi! Agora vai lá e coloca de volta.
- BABEEE! Agora tem que esperar crescer, né?!
- hahahaha

^^

27 de março de 2012

my cool nebraska guy

Setembro de 2011. 

Chegamos em Vegas e nos demos conta de que já era setembro. No dia primeiro era meu aniversário, no dia 2 fomos pra Lincoln, então foi só na volta que paramos para pensar que já não tínhamos mais longos e três meses juntos e sim, um. Unzinho. 

Parece que é sofrimento por antecipação. E era. Eu tinha me dado esses três meses para decidir e esse tempo estava escorrendo entre os meus dedos. Estava chegando o dia do "ou vai ou racha", "ou bebe ou desocupa o copo", "ou caga ou sai da moita", "ou casa ou volta pra casa". E eu não estava pronta para sair do meu lugar confortável em cima do muro.

A ansiedade me corroía e isso refletia no nosso relacionamento e espirrava nele. Eu era uma montanha russa de emoções, com risos e choros dando voltas aceleradas dentro de mim. Ele fazia um esforço sobre-humano para equilibrar as coisas, o que me dava rompantes de paixão ou ataques de fúria.

Nessa mesma época, surgiu a necessidade de a minha vó fazer a sexta angioplastia da carreira. Para quem não tem uma vó com sérios problemas cardíacos desde que se conhece por gente, angioplastia é um procedimento cirurgico que visa desobstruir as artérias congestionadas com gordura ou sangue coagulado.

Relativamente simples, mas em se tratando da minha vó era praticamente um transplante de coração! E se tem uma coisa no mundo que eu tenho medo, é de que ela morra. O medo só aumenta com o fato de que este dia obviamente irá chegar mais cedo ou mais tarde. 

Não conviver com ela é um dos motivos que me faz querer ficar, para sempre.  Mas segundo ela, não vai adiantar nada. "Eu vou morrer igual, vai fazer a tua vida." Acontece que eu não ficaria por ela e sim por mim. Pela minha necessidade de estar por perto daquele coração que bate fraquinho, mas que ama que nem um furacão. Triste.

Em dias como aqueles, ele chegava em casa com flores e bombons e até a Lady Gaga resolveu lançar uma música sobre um amor da Nebraska. O hit "You and I" é sobre o relacionamento com o ex-namorado Luc Carl, que nasceu lá, que nem o Jared. Resumo da ópera, até a Lady Gaga sofria de amor por um cara legal da Nebraska. Eu cantava junto e os meus dias ficavam mais animados. Dias melhores viriam.





Em uma tradução tosca:

"Faz tempo, mas estou de volta à cidade. E dessa vez eu não partirei sem você (...) Eu daria qualquer coisa para ser sua bonequinha (...) Há algo, algo sobre este lugar, sobre noites solitárias e meu batom no seu rosto, alguma coisa sobre o cara legal da Nebraska. Sim, alguma coisa, babe, sobre você e eu".

23 de março de 2012

Lincoln, Nebraska

Setembro de 2011.

Os americanos não têm lá muitos feriados como nós, brasileiros. Dá para contar nos dedos: New Year, Martin Luther King, Memorial Day, Indenpendence Day, Labor Day, Thanksgiving e Christmas. Sem feriadão, choro nem vela. O Labor Day [Dia do Trabalho] é sempre a primeira segunda-feira de setembro, uma ótima oportunidade para um final de semana esticado e para eu conhecer a cidade natal do Jared. 

Pegamos um voo sexta de tarde com destino a Omaha e uma conexão em Denver, que atrasou duas horas, é claro. A mãe e irmã dele foram nos buscar no aeroporto em Omaha e ainda tínhamos mais uma hora de carro até Lincoln. Chegamos lá quase à uma da manhã e acabamos ficando em casa.

O quarto do Jared é no sotão. Pensem em algo beeeem de filme americano. Era assim. Às vezes eu me perguntava se não estava dormindo e sonhando em estar em alguma comédia romântica água com açúcar com final feliz previsível. Aí acordo e lembro que a mocinha sou eu e que eu não sou lá muito previsível.

Sábado acordamos cedo e tomamos um super café da manhã que a mãe dele fez. Sim, de filme. Ovos mexidos, bacon, torradinhas, suco de laranja e café de balde! À tarde era a estréia do time de college football do estado no campeonato nacional. Uma coisa séria naquela cidade e naquela família! Até o cachorro estava fardado.

Fomos encontrar os amigos dele na concentração pré-jogo! A cidade era um mar vermelho de gente. Até eu tinha a minha camisetinha, que eu ganhei lá no nosso segundo encontro, lembram? Quem diria que um dia eu realmente iria estar lá. Acabamos assistindo o jogo em casa. Então o jogo no estádio ainda é dívida.

Depois saímos para passear pela capital da Nebraska. "Aqui que eu fiz ensino fundamental, aqui é a minha high school, aqui tem a melhor pizza do mundo, ali é a casa do fulano que estudava comigo", ele narrava os pontos turísticos da vida dele, misturando com os pontos turísticos cidade.

À noite, fomos encontrar os amigos dele. Eu já tinha ouvido falar da maioria e alguns eu conhecia por fotos. Eles me trataram muito bem, felizes por finalmente me conhecerem. Todos com exceção de uma menina, que fez um esforço extra para me ignorar.

Divertido. Ela virou meu alvo de implicância preferido. E o mais legal de tudo, foi ter os pais dele implicando junto comigo no dia seguinte.

Domingo, com uma senhora ressaca, já que me fizeram beber de tudo no meu ritual de iniciação no clube das namoradas, desci linda pro café da manhã. Ninguém precisa saber que eu vomitei numa cesta de lixo, apesar de o Jared ainda me chantagiar com essa história, desci linda e isso é o que importa.

O pai dele fez uma costela de porco a lá churrasco americano, que tava um luxo. Perfeito para curar o porre da gordinha aqui. Os avós vieram de outra cidade almoçar com a gente. Aliás, dirigiram três horas para chegar lá. O que não seria muito se eles não tivessem quase 95 anos. Depois ainda tomaram  uma caipirinha para relaxar! Adorei os dois, mas a avó dele é sensacional. Uma figuraça.

Domingo de noite tinha mais festinha no basement (porão) dos amigos. Também, beeeeeem americano. Na segunda-feira, almoçamos com os amigos e para encerrar com chave de ouro, o pai dele me levou para dar uma volta de porshe (1957). Um carro que ele demorou dez anos para montar e que ele tem antes da mulher. Ou seja, o xodó do sogro. O namorado de 6 anos da irmã do Jared ficou até com ciúminho de mim,  já que ele nunca andou no carro. Me achei poderosa na família.


Na hora de ir embora teve choro. A mãe e a irmã dele são umas manteigas derretidas que nem eu. Os pais dele nos levaram no aeroporto. Em um impulso honesto, eu disse que iria voltar. O pai dele me olhou no fundo do olho e disse: eu vou te esperar! Me deu um arrepio na espinha. Fomos embora. 

20 de março de 2012

vinte e cinco

Setembro de 2011.

As lições básicas de português para namorados americanos são as palavras: sim, oi amor, bom dia linda, muito bonita, te amo, beijo e saudade. Normalmente essas são as primeiras coisas que eles dizem e que a gente ensina. O resto vem depois: não, muito chata, tá louca e tá tchau!

O Jared um dia inventou de me chamar de amorzinho, mas para começar ele não entendia porque era amorzinho e não amorzinhA, já que eu sou menina. Até aí tudo bem, o problema mesmo é que ele nunca dizia ou escrevia amorzinha e sim, amorinha. Eu explicava que amorinha era outra coisa. Mas não adiantava, na cabeça dele eu tinha virado uma amorinha.



Até que o primeiro de setembro chegou. Meu aniversário de 25 anos, longe de casa, perto dele. Ele escondeu os meus presentes todos no frigobar desativado. Eu obviamente achei os presentes, apesar de não estar procurando, estraguei a surpresa e ele ficou furioso comigo. Tentei fingir que não tinha visto nada, mas não teve jeito.  Eu tinha visto tudo. Mas quem no meu lugar não teria feito a mesma coisa que me atire a primeira amora pedra.

Mesmo assim, acordei com os meus presentes todos em cima da cama.  A mesma coisa que eu tinha feito com ele, 27 dias atrás, quando ele também completou 25 anos. Durante o dia, escrevi uma carta pra minha vó, porque era estranho não poder falar com ela no meu aniversário e falei com os meus pais no Skype. De noite, saímos para jantar e eu matei minha vontade de comer sashimi! Aliás, que vontade de comer sashimi de novo. Agorinha.

Quando achei que o meu dia tinha acabado, sai ele do banheiro, sim do banheiro, cantando happy birthday to youuu com um bolo cheio de velinhas! O bolo de sorvete estava escondido no freezer, ele passou com o bolo numa sacola na minha frente e foi pro banheiro acender as tantas velinhas e eu não vi! Mas os presentes no lugar mais improvável da casa, eu achei! Coisas de Fabiana.

Parabéns pra mim, a amorinha! Que venham mais 25 anos, de preferência mais tranquilos, com mais certezas do que dúvidas, mais coragem do que medo, mais amor do que saudade. Amém.




17 de março de 2012

meeting the parents

Ainda agosto de 2011.

Eu já conhecia os pais dele pelo Skype, o que não podia ser diferente, já que 75% do nosso relacionamento é pelo Skype. No entanto, na hora de conhecê-los pessoalmente senti aquele friozinho na barriga como se eu não tivesse ideia de como eles eram.

Eu dizia: -"Avisa pra eles que eu sou baixinha, sou gordinha. Não dá para ver na maioria das fotos. Avisa para eles que eu tenho um sotaque forte e meu inglês não é lá essas coisas". Avisa pra eles isso, avisa pra eles aquilo. E ele ria sem parar de mim, parafraseando o meu host Peter que dizia que eu sou que nem o Papai Noel: todo mundo gosta do Papai Noel.

Eles iam chegar em Vegas na última quinta-feira do mês. Eu tinha chegado da Pensilvânia na segunda-feira daquela semana, o que me deixou efetivamente apenas terça e quarta para colocar a casa nos trinques. Isso soa meio machista, já que não é necessariamente responsabilidade minha manter a casa em ordem. Mas que se dane o meu feminismo nessas horas. Eu queria mesmo era impressionar.

O Jared foi direto do trabalho buscar eles no aeroporto e tirou o resto do dia de folga. A minha tensão durou no máximo 2 minutos depois que eles chegaram. Eles me deixaram extremamente à vontade. São uns fofos e sabem desde o começo como o filho deles gosta de mim, essa brasileira louca e confusa.

Não hesitei em ir para a cozinha fazer um strogonoff, porque é clássico, difícil de errar e a regra era impressionar mesmo! Nada de medir esforços na hora de agradar a sogra, um serzinho que pode determinar a paz doméstica em muitas famílias. Ela era ótima, mas no começo, todo mundo é ótimo. Melhor não arriscar!

Mais tarde, fomos numa loja de departamento para casa e eles compraram muitas coisas que o Jared ainda não tinha. Passamos a sexta-feira e boa parte do final de semana instalando ventiladores de teto, puxadores de armários e cortinas.

Eles me pareceram muito leves, bem dispostos e engraçados. Eu não precisava medir minhas palavras ou tampouco minhas cervejas. O que era um alívio em se tratando de mim, pessoa com pouco ou nenhum filtro. Fora isso, foi muito interessante e divertido reconhecer expressões e traços da personalidade do Jared neles.

O tempo passou voando e na terça-feira eles foram embora, mas a despedida foi tranquila porque na sexta seguinte era a nossa vez de ir para a casa deles em Lincoln, no estado da Nebraska. O Jared fazia questão de me levar para conhecer a terra natal, os amigos e o resto da família. Mas esse já é assunto para um outro dia. O importante agora é que passei no teste dos sogros sem deslizes. Uma estrelinha pra mim, por favor.

16 de março de 2012

pensilvânia 2

Agosto de 2010.

Eu não podia ir aos Estados Unidos e não visitar os meus pequenos na Pensilvânia. Isso sem falar na minha prima e nas minhas amigas que ainda estavam por lá. O Jared também queria ir e finalmente conhecer a minha hostfamily.

Como alguém tinha que trabalhar, eu comprei minhas passagens para ficar mais dias. Fui numa quarta-feira, dia 10, e voltei na segunda-feira, dia 22 de agosto! Ele ficou de me encontrar na sexta-feira 17 para passar o final de semana com a gente lá.

O meu hostfather foi me buscar no aeroporto. Entrei em casa e senti olhinhos perplexos me olhando. Até que o Owen gritou FABI! E veio correndo me abraçar. O Chase veio junto e logo em seguida veio o Cael, ainda tentando me resgatar na memória dele. Aquele abraço triplo depois de um ano sem vê-los foi um desses momentos que a gente não esquece nunca. 

Matei a saudade dos pestinhas, dos pais dos pestinhas, reencontrei amigos queridos, mas toda a expectativa era com a chegada do Jared. Todo mundo queria conhecer ele, principalmente os meninos que tinham  milhões de perguntas.

A princípio ele ia chegar na sexta-feira pela manhã, mas em se tratando de Jared e aviões, nada sai como o planejado. O voo foi cancelado por causa do mau tempo. O próximo voo chegaria na Filadélfia à uma da tarde. Atrasado. Então iria chegar somente às 6 da tarde, depois de uma escala em Nova Iorque. Isso tudo, ele sem  ter ido trabalhar, sentado no aeroporto bufando de raiva.

Às 5 da tarde, saímos de casa para buscar ele no aeroporto em Philly. Eu, a Lili (au pair que ficou no meu lugar), a Conny (au pair recém chegada para substituir a Lili), o mais velho, Chase, e o pequeno, Cael. Quando estávamos lá, o Jared liga de Nova Iorque dizendo que todos os voos tinham sido cancelados. Ou eu ia buscar ele em Nova Iorque, ou ele ia ter que passar outra noite no aeroporto!

Teoricamente, seriam mais duas horas de carro até o aeroporto de Nova Iorque. A gente estava uma hora longe de casa, se eu voltasse para deixar os meninos seria o dobro do caminho. Então liguei para mãe deles perguntando se podia levar eles até Nova Iorque comigo. Ela não se importou. Nem eles. Era uma aventura, Fabi estava de volta.

O problema todo foi que começou a chover muito forte e o trânsito estava um caos, tudo engarrafado. Ao invés de chegarmos lá às 8 da noite, chegamos às 10!! Mortos de fome, cansaço e tédio, depois de cinco horas na estrada. O Jared estava ansioso nos esperando na porta, com pedaços de pizza para nós. O pior já tinha passado, eu pensei.

A volta para casa foi mais tranquila. Chegamos à uma da manhã. Colocamos os meninos na cama e fomos dormir. Perdemos a sexta-feira, mas sábado foi dia de escalar e à noite fomos para a festa de despedida da Lili! As minhas amigas, que também eram amigas da Lili estavam lá e até os meus hosts foram. Foi um outro dia daqueles, quando a gente junta um monte de gente querida na mesa de um bar. 

No domingo curtimos uma ressaca, brincamos com os meninos, jantamos fora e fomos levar o Jared no aeroporto. A visita foi rápida, mas divertida! Eu estava feliz! Mas confesso que ver ele indo embora sozinho foi muito ruim. Eu ia embora só no dia seguinte, por causa daquelas economias bobas em passagens.

Skateboard lessons
No dia seguinte, foi péssimo me despedir dos meninos outra vez, mas tinha sido ótimo estar com eles de novo. Então, eu não tinha motivos para ficar triste. E sim agradecer! Sem falar que eu já estava com saudade do meu outro menino e que ele ia estar do outro lado do país me esperando.

Owen, Cael and Chase

14 de março de 2012

piriguete

No começo daquele agosto (2011), saímos para jantar com dois amigos meus, que estavam de férias em Vegas, a Daiane e o irmão dela, Cristiano. A gente foi mostrar um pouco da cidade para eles e era estranho dar uma de "anfitriã" quando eu não passava de visitante/turista.

Foi nesse dia que o Jared aprendeu uma palavra em português que ele usa até hoje: piriguete. A Dai ensinou e desde então ele reconhece uma dessas de longe, aponta e fala orgulhoso: piriguete! Eu tenho que rir, né?! Mas esse jogo de identificar piriguetes na rua, já está perdendo a graça. Principalmente, quando ele vem para o Brasil!!

Com piriguetes ou sem piriguetes, foi muito bom encontrar eles lá. Ter o Jared aqui e ter pessoas daqui nos Estados Unidos é juntar o melhor dos meus dois mundos em um lugar só. Quisera eu que fosse sempre assim.


12 de março de 2012

quem me viu, quem me vê.

Agosto de 2011.

Quem achou como eu que a gente ia brincar de casinha, se enganou. No segundo dia de casa nova, o Jared notou uma mancha escura na parede da garagem. O responsável pela construtora foi lá e nos sentenciou com um vazamento na cozinha.

Apesar de a casa nunca ter sido habitada, ela já estava pronta a quase um ano. Quando os armários foram colocados, um dos pregos heroicamente conseguiu perfurar um cano quase do outro lado da pia. Era um prego herói mes-mo. O prego ficou ali por todo esse tempo, quietinho. Nós abrimos a torneira em um dia, no outro dia estava feito o estrago.

O começo do estrago.
Foi assim que a gente acabou com a parede da bancada da pia quebrada, as partes inferiores dos armários embutidos arrancadas, seis ventiladores industriais ligados 24 horas por dia e um fluxo intenso de técnicos, medidores, pedreiros e pintores. Em outras palavras, destruíram o nosso momento lua-de-mel com a casa.

Como o Jared tinha que trabalhar, quem administrava toda a reforma era eu (hoho). Eles então deduziram que eu era a esposa e me faziam assinar aqui, assinar ali também. O que me dava um arrepio na espinha. Eu desfazia o mal entendido quando tinha a oportunidade e respondia todas as perguntas dizendo que ia falar com o dono da casa. Afinal, parte de mim sabia e fazia questão de lembrar, a casa era dele! Meu mantra, lembram?

No final daquela semana, eu já sentia certa simpatia pelos mexicanos trabalhando na reforma. Continuava sem entender bulhufas do espanhol deles, mas nos comunicávamos com mais facilidade em inglês. Enquanto o Jared surtava com a textura da parede e os acabamentos, eu tentava amenizar o caos.

Depois de ele muito brigar com o responsável pela obra, eu brigar com ele e ele brigar comigo acabamos chegando num acordo com a cozinha quase do jeito que era antes. A diferença era duas tijoletas de outra tiragem, que só a gente enxerga. Mas a gente enxerga.

Em meio ao pesadelo da cozinha, ainda precisávamos comprar geladeira, máquina de lavar e de secar roupa e um sofá. Fomos às compras e eu atestei o poder de decisão da mulher em um relacionamento. Ele estava pagando, mas de certa forma todos os vendedores tentavam me convencer da qualidade dos produtos, mesmo eu tentando ficar com cara de paisagem.

Não sei se eles imaginaram que era eu quem ia pilotar os novos eletrodomésticos - uma ova - ou se eles sabem que os homens não compram nada para casa sem a aprovação das suas respectivas mulheres. No fundo, deve ser as duas coisas.

Nesse clima, foram os nossos primeiros dias de vida de gente grande. Sem falar que uma loja outlet de decoração virou o nosso lugar preferido no mundo. As coisas estavam mesmo ficando progressivamente fora do meu controle.


9 de março de 2012

test drive

Saímos do aeroporto e fomos para a casa dele pelo caminho das luzes. Afinal, fazia um ano inteirinho que eu não ia a Las Vegas. Eu nem sequer achava que estaria de volta um dia. Ainda era meio surreal. Quando entramos no apartamento, ele me disse: -Welcome home! [Bem-vinda em casa!] Sorri e comecei a varrer todos os cantos com os olhos para ver o que tinha mudado. Pouco, quase nada. Era bom estar de volta.

Passamos de um casal de namorados que se vê em média 5 vezes por ano, para um casal de namorados confinado em um apartamento de um quarto, que dorme e acorda junto todos os dias. Era mais que um test drive, era um cursinho intensivo! Finalmente podíamos sair para jantar, ver um filme agarradinho no sofá e ir ao cinema. Podíamos fazer tudo e, melhor ainda, fazer nada juntos. Até enjoar da cara um do outro.

Enquanto ele ia para o trabalho, eu ia para a piscina do prédio, para a academia, para a cozinha! E ainda encaixotava as coisas dele para a mudança. O que pode parecer uma exploração, mas para mim era um passe livre para fuxicar em absolutamente tudo. Não que eu já não tivesse mexido em tudo da outra vez que eu fui, mas dessa vez, eu tinha consentimento e podia até pedir explicações caso fosse necessário. Ou debochar!

Duas semanas se passaram e depois de reclamar de todas as possíveis e imagináveis falhas do pintor, contratamos um caminhãozinho para a fazer a mudança. Depois de um dia inteiro de formiguinhas, lá estávamos nós, numa casa novinha em folha, com aquela bagunça boa de mudança, com cheiro de recomeço e um cansaço bom, de dever cumprido.




A única coisa que passava pela minha cabeça era que eu não queria me casar, mas, se eu quisesse, eu já tinha até casa!


7 de março de 2012

aeroporto 6

Julho de 2011.

Com passaporte, visto e fundo de garantia na mão, no dia 11 de julho peguei um ônibus para a capital dos gaúchos, rumo ao aeroporto. Meus pais até queriam me levar, mas eu não queria muito alarde, então fiz questão de uma saída discreta, do tipo vou ali em Vegas e já volto. "São só três meses, mãe. Passa rapidinho."

O ônibus Azul me deixou na porta do Salgado Filho. De lá voei para o Rio de Janeiro e na manhã seguinte aterrissei em Charlotte, na Carolina do Norte. Na minha frente na fila da imigração tinha uma excursão de adolescentes indo para a Disney. Uns quinze, com média de quinze anos.

Quando cheguei no guichê, a moça da imigração com cara de poucos amigos me perguntou se eu também ia pra Disney. "Não, eu vou para Las Vegas".  O parque de diversão dos adultos. Ela grunhiu e perguntou quanto tempo eu pretendia ficar. "Três meses", falei entre os dentes, olhando para o lado. "TRÊS MESES?!", ela repetiu e emendou a pergunta: "-O que tu vai fazer em Las Vegas por três meses?". Aí eu pensei: ou eu minto e vou pra salinha da tortura de imigrantes, ou eu falo a verdade e ela me manda direto de volta para o meu país de origem. Resolvi falar a verdade, tenho pânico da salinha.

It's a love story!, foi a primeira coisa que me passou na minha cabeça. "É uma história de amor. O meu namorado foi me visitar ano passado e agora é a minha vez!" Arrematei com sorriso tímido, raras vezes visto em mim. "A-hã". Ela grunhiu de novo sem nem me olhar. Eu já estava preparada para girar nos meus calcanhares e pegar o rumo da deportação, quando ela começou a carimbar o meu passaporte. 

Mal agradeci e chispei dali, antes que ela mudasse de ideia. Acreditem ou não, eu ainda tinha mais um voo de 4 horas e meia até Las Vegas. Eu ia chegar lá à uma da tarde do dia 12 de julho. Na verdade, às 12:51. Cada minuto era minuto.

Cheguei moída, desci na primeira escada rolante que eu vi e esqueci completamente do que a gente tinha combinado. Não encontrei ele em lugar nenhum. Aí lembrei do carrossel de bagagem 10. Aquele que a gente se achou na primeira vez e virou o nosso ponto de encontro. Mal cheguei lá e ele surgiu na minha frente, com um copo de Starbucks Vanilla Latte. Ali, naquela hora, tudo parecia mais do que certo. Quase perfeito.

Nos primeiro gole, derrubei café na blusa branca. Vida real, chamando. Não consegui disfarçar nem por cinco minutos que eu ainda era a mesma pessoa desastrada de sempre. Ele riu. Depois de  220 dias sem nos vermos pessoalmente, a gente se olhava com certo ar de curiosidade, era mais que um re-encontro. Era um re-conhecimento.

Mais ou menos como ver um filme pela segunda vez, a gente sabe como é, sabe como termina, mas sempre se surpreende com partes que a gente não lembrava. "Tua voz tá diferente", ele disse. Ele também tava diferente. Mal sabíamos nós, que ao final desses três meses, jamais seríamos os mesmos.


3 de março de 2012

casa nova

Junho de 2011.

Nesse meio tempo, o meu então namorado resolveu que ia comprar uma casa. Sim, uma casa. Ele já tinha me dito que o contrato de aluguel vencia em agosto daquele ano e que pensava em investir em um imóvel, já que o mercado estava propício com a recessão da economia americana e blábláblá. Enfim, estava barato pra chuchu. 

Durante as nossas conversas, comecei a receber links dos imóveis que a corretora mandava para ele e antes mesmo de eu me dar conta, eu já tinha uma opinião formada sobre todas as casas. Opinião essa que eu ressaltava como meras sugestões, afinal de contas, a casa era dele [1].

Na meio da procura, ficou claro que valia mais a pena comprar uma casa novinha em folha. O preço compensava e seria mais fácil de vende-lá no futuro. Eis que surge a escolhida. Antes de fechar o negócio, eu recebi muitas fotos e vídeos do imóvel para dar a minha opinião/sugestão.

Como um mantra, eu repetia, que o mais importante era o que ele achava e não eu, afinal de contas, a casa era dele [2]. Ele sorria e concordava. Como quem não queria nada, ele me perguntava que cor deveriam ser as paredes e eu respondia que não sabia. Aí ele me mostrava amostras e eu acabava opinando/sugerindo. E assim, ele ia me ganhando.

No começo de junho, antes ainda de comprar a tal casa, ele comprou as minhas passagens. Os dois meses que eu tinha prometido, viraram três meses exatos. 11 de julho a 11 de outubro. Era oficial, nós íamos nos dar mais uma chance.

Um dia ele me perguntou, se eu não me importaria em estar lá durante a mudança. Não ia dar tempo de ele se mudar antes de eu chegar. Eu disse que não, desde que ele não me associasse como parte da casa nova. Combinado, diz ele. Mas, no fundo, eu sabia que não estava nada combinado. Eu ia fazer parte daquele momento importante na vida dele, a primeira casa própria. O que ia ser mais uma história para contar ou mais uma ferida para doer.

Por outro lado, eu fiquei feliz em saber que eu voltaria ao apartamento por pelo menos duas ou três semanas. O apartamento que me fez chorar nas últimas vezes que eu entrei nele, por justamente achar que eram as últimas. Naquele época, tudo parecia uma despedida. Tudo era despedida! Muitos dias poderiam ter sido os nossos últimos dias. Mas não foram. E antes mesmo de junho terminar, eu já tinha começado a arrumar as malas mais uma vez...


1 de março de 2012

quadro na parede

No primeiro semestre de 2011, eu tinha a sensação que a minha vida era um quadro torto na parede. Todo mundo via que estava torto, mas ninguém arrumava porque a dona da casa era eu. Sendo assim, era esperado que eu desentortasse o quadro de uma vez, de forma simples e óbvia. Mas afinal de contas, a vida era minha, o quadro era meu e o momento era torto.

Passou janeiro, fevereiro e março. Em abril, no dia 17, completamos um ano de namoro a distância. Um ano. Era definitivamente uma marca. Nos falávamos religiosamente, todos os dias. Um esforço epontâneo para mantermos o que tínhamos o mais vivo possível. Mais vivo, impossível. Era até vital.


Em maio, pedi uma semana de folga no jornal, fiz as malas e fui enfrentar o consulado americano em São Paulo. Ali caia mais uma barreira. Como eu precisava do visto para viajar, a gente não falava em eu ir, a gente falava no visto. Quando o visto foi concedido, o foco da conversa mudou e não tinha mais nenhum empecilho, a não ser a minha vida inteira aqui.

Expliquei que eu ainda estava sem coragem de tomar uma decisão definitiva (se é decisão é definitiva, mas achei melhor enfatizar). Ficou combinado que eu iria visitar ele, ver como a gente ia reagir a dois meses inteirinhos juntos, fazer um test drive. O meu medo era gerar mais apego e ficar ainda mais difícil de terminar o namoro, caso essa fosse a coisa certa a fazer. Não, eu não queria terminar o namoro, mas continuar o namoro significava eventualmente casar e ir embora do Brasil, o que, como vocês já estão carecas de saber, eu também não queria. E ele também nem tinha pedido!

Navegávamos num mar de incertezas e coisas não-ditas, por mais clichê que essa frase possa soar. Estávamos à deriva, sem previsão de atracarmos em terras firmes. O único fato era que o meu melhor contrato de emprego terminava dia 30 de junho. Em outras palavras, o contrato que me prendia. Foi esse o tempo que eu me dei. Foi esse o prazo que ele aceitou. Eu diria, um prazo longo demais, pois no final de junho seriam quase 7 meses sem nos vermos pessoalmente. Sete longos meses.