26 de abril de 2012

Brasil, de volta.

12 de outubro de 2011.

Cheguei no Rio Grande do Sul. Tem coisa melhor que isso quando um gaúcho tá com o coração apertado? Meu pai e minha vó foram me buscar no aeroporto. Era feriado, como vocês bem sabem e minha mãe e irmãos estavam me esperando em casa. Chegar é sempre essa coisa boa, com gosto de destino final. Sem falar no gosto da comida da mãe da gente.

Novembro de 2011.

Os dias foram passando um depois do outro. Eu saia na rua e sempre encontrava alguém que dizia: e aí Fabi, voltou? Virou até piada interna. Eu não era uma miragem, eu tinha voltado. O que abria espaço para a próxima pergunta: vai ficar por aqui agora? Eu ia. No entanto, de certa forma, as minhas respostas curtas pareciam não satisfazer a curiosidade dos meus interlocutores.

Eles ficavam me olhando, com olhos de quem espera mais. Aí, quando eu me dava por mim, eu já estava contando a minha vida de trás pra frente. Quem me conhece sabe que eu falo muito, e gosto, mas aquele repeteco estava me incomodando. Por coerência ou distração, eu acabava sempre dizendo as mesmas coisas. Quem me fazia perguntas, recebia as mesmas respostas. Era um desgaste.

Como se não bastasse, não saber como eu ia sair desse enredo, eu ainda tinha que me ouvir dizer em voz alta a todo instante que eu não sabia o que fazer com a minha vida. [over and over]. O que era um pouquinho humilhante na minha cabecinha cheia de orgulho. Isso que nem tinha chegado a época de as pessoas perguntarem onde é que eu trabalho! Essa fase veio depois.

Eu tinha ficado apenas três meses longe, mas pareciam mil anos luz. Eu voltei de lá, mais pra lá do que pra cá, mas era difícil admitir. Eu queria o meu lugar confortável em cima do muro. O muro se rachava a cada dia e ou eu pulava para um lado, ou eu pulava para o outro, ou eu ia acabar de bunda no chão, soterrada pelo muro da indecisão que eu mesma tinha construído. [drama mode on]

Definitivamente, eu não podia continuar a minha vida da onde eu tinha parado. Não dava para pedir meu antigo emprego de volta, sem decidir ficar para "sempre". Afinal, ninguém é ioiô. Por sorte, eu tinha feito um pezinho de meia. Nunca achei que um dia eu ia escrever isso na vida, mas pelo menos dinheiro não era o meu problema. Eu tinha o suficiente pra me manter sem luxos por uns seis meses.

Durante esse tempo nos eua, eu também tinha conseguido investir uma grana em uma máquina fotográfica profissional, que me rendeu uns bons trocados e me encheu o coração de alegria. Trabalhar em alguma coisa era bom. Trabalhar com arte, era melhor ainda. Mesmo que eu não fosse lá essas coisas como fotógrafa, tirar fotos me fazia muito bem. Eu fazia quase de graça. Eu fazia por mim.


Apesar de adorar fotografia, eu morria de vontade de escrever. Eu passava na frente da delegacia ou do hospital da cidade sentindo cheiro de pauta. Jornalistas são verdadeiros cachorros em porta de restaurante. Eu tinha voltado as minhas consultas com a psicóloga, mas me sentia mais morna que um pudim em banho maria.

Eis que surgiu um Francisco Lima na minha vida. Ele já faz parte da minha vida há anos, está sempre ali, à espreita. Quando eu preciso, ele surge com ideias, críticas e sugestões. O Chico é tipo um consumidor chato participativo, em forma de amigo palpiteiro.

Um dia ele me disse, "tchê, escreve um blog sobre esse teu dilema". Eu achei ótima a ideia, mas continuei na inércia. Aí no outro dia, ele me disse: "já começasse a colocar o blog em prática?". Resolvi me dar um prazo. Quando o blog saiu, ele queria pensar no design, no estilo de postagem, no feed, na putaquepariu. Quando saiu o primeiro texto, ele quis o segundo. E assim ele foi me empurrando até eu conseguir pedalar essa bicleta sozinha.

Assim nasceu esse blog, que vem me ajudando muito a elaborar essas coisas todas. É o espaço que faltava na minha vida para ventilar os meus sentimentos. Li em um livro esses dias*, que o vento precisa de espaço para existir. Quanto mais espaço, mais força. Com os sentimentos é a mesma coisa.


Amém para os Chicos na vida das pessoas!

*O nome do livro é Angel, do autor Roberto Shinyashiki. Ganhei a sugestão de presente da fazedora de pássaros, Hélen Albernaz! 


5 de abril de 2012

despedida 6

Outubro de 2011.

De volta ao meu draminha da vida real, outubro chegou bem mais rápido que o previsto e tudo era motivo para pensar na despedida, que já nos espiava da esquina. Nesses últimos onze dias, eu tinha uma certa urgência em ir embora. Aquela velha história, arranca o esparadrapo todo de uma vez só e deixa cicatrizar a ferida.

Por mais que a gente tentasse não pensar no assunto, eram dois elefantes na sala. As despedidas têm disso, a gente vai remoendo. Primeiro nos despedimos dos lugares, depois dos momentos e por fim das pessoas. É um processo mais complexo do que simplesmente dizer tchau.

Pensando nisso, passamos um dia inteiro na Strip, principal avenida de Vegas. Conhecemos o hotel novo, almoçamos onde a gente nunca conseguia mesa, fomos na montanha russa, batemos fotinhos turísticas. Fizemos tudo, sabendo que de novo podia ser a última vez que fazíamos qualquer coisa juntos. Sim, eu ainda não tinha resposta.

A minha resposta foi: preciso ir para casa, conversar com a minha família e analisar a situação de lá. Em outras palavras, quero mais tempo para enrolar. Eu estava morrendo de saudade e com medo de tomar uma decisão no calor do momento. Eu, com esse meu medo de fazer a coisa errada, acabo não fazendo a coisa certa.

A gente já tinha meio que combinado que ele viria ao Brasil para o Natal. Eu disse, num ato de coragem e de insegurança ao mesmo tempo, que se eu não tivesse a intenção de retornar aos Estados Unidos, que eu achava melhor ele não ir para o Brasil. Ele concordou em silêncio, com aquela cara de cachorro sem dono que os homens fazem tão bem quando querem. Eu precisava de mais tempo, ficamos combinados assim.

Naquela terça-feira, tomamos café juntos, colocamos as malas no carro e fomos para o aerporto bem antes do horário. Eu dei um jeito de acomodar tudo, dessa vez não ficou nem um sapato velho para contar história. Vou levar tudo. Se for o caso, trago tudo de volta, pensei em voz alta. Ele me observava, até me ajudou, sem desmoronar um minuto, a melhor ajuda que ele podia ter me dado.

Fomos para o aeroporto, fiz o check in e me dei conta que eu tinha perdido o meu celular. O celular que eu coloquei numa gaveta no primeiro dia que cheguei e só coloquei de volta na bolsa antes de irmos para o aeroporto. Inacreditável. Nesse meio tempo, descobrimos que estávamos no terminal errado, o que veio bem a calhar.

Fizemos todo o caminho de volta até o carro olhando para o chão. Tínhamos um problema, que, enfim, desviava o foco de atenção daquele outro probleminha, a minha partida. Reviramos o carro e nada de achar o celular, que magicamente caiu da minha bolsa sem que eu notasse. É impressionante como a gente se desliga do mundo exterior, quando o nosso mundo interior está desabando.

Ele me levou de carro até o terminal dois e nós concordamos em ele me deixar na porta. Arranca logo esse esparadrapo. Ele desceu do carro, me entregou a minha bagagem de mão, me abraçou bem forte e eu não me lembro o que ele disse, desculpem. Mas eu me lembro bem que, quando olhei para ele, muitas lágrimas pingavam na camiseta verde bandeira. Ele nem se dava o trabalho de passar a mão no rosto. Eu fiz isso por ele. Ver ele chorando me dava um nó na garganta. Eu não conseguia nem chorar junto, por me sentir a pior pessoa do mundo.

Eu não me sentia no direito de chorar, pelo simples fato de que todas aquelas escolhas (ou falta de escolhas) eram minhas, eu tinha que no mínimo assumir as crianças. Ele entrou no carro e foi embora. Eu fiquei ali plantada no meio-fio da calçada, na frente do terminal dois, vazio, que nem eu. Fazia sol, estava calor, mas eu não sentia nada. Só o tal vazio. Peguei o avião e voltei para o lugar da onde vim. Sem mais.





2 de abril de 2012

Malibu, California

Fim de setembro de 2011.

Essa história começa com a clássica amiga de uma amiga minha. A Sofia, amiga da Jaque, estava morando com o marido americano em Malibu, na Califórnia, e nos convidou para passar um final de semana com eles. Nós arrumamos as mochilas, alugamos um hotelzinho barato, jogamos um fardinho de cerveja no porta-malas e pegamos a estrada.

Saímos de Vegas no final da tarde de sexta-feira, quatro horas depois estávamos lá. Fomos para o apartamento deles e começamos a dividir a experiência de namorar alguém de outra nacionalidade. Era bom conversar com gente como a gente. 

No sábado de manhã fomos descobrir Malibu, a praia das celebridades. Eles nos levaram para fazer uma trilha, que terminou em uma piscina natural no meio das montanhas. Momento filme, pessoal. Eu diria a lá Lagoa Azul, mas não somos tão antigos e bregas clichês e nadamos vestidos. Atravessamos a piscina e fomos escalando as rochas, até esgotarmos o lugar.

Depois disso, ainda fomos em um centro de conveniências, mas não encontrei a Jennifer Anniston lá. Ou então não nos vimos. Esticamos para outra prainha, onde um pessoal estava caçando siri. É claro que os meninos adoraram a ideia e enchearam um copo de café com os bichinhos. Em casa, eles foram direto para a panela e nós dividimos irmamente o pouco de carne que eles tinham.


Voltamos para o hotel, tomamos um banho e fomos para Santa Monica jantar num restaurantezinho brasileiro delícia. Comemos coxinha, arroz, bife, acebolado, farofa. Essas coisas do nosso Brasil de meu Deus.

No domingo de manhã fomos nos despedir deles. O marido da amiga da minha amiga tinha que trabalhar e eu o Jared estávamos soltos em Malibu. Eles nos deram umas dicas de lugares para passar o domingo e deu tudo certo. Primeiro encontramos uma feira de antiguidades, um brique da Redenção para os gaúchos, uma praça San Telmo para os argentinos, sem o tango, é claro.

O meu namorado adora feirinhas e open markets. Lembram da paixão dele pelos camelôs? Fizemos a festa e acabamos comprando um baú de 1940, mais um cesto que era usado para medir arroz, molduras, um banquinho estiloso e eu ainda arrematei um vestido, uma saia e tiaras para o cabelo. Tudo baratinho. Lotamos o carro de tranqueiras e saímos de lá felizes. Ainda bem que a gente não tinha mais espaço.

Depois da nossa aventura na feirinha, fomos em busca da praia secreta. Os turistas desavisados acham que a praia termina quando a rua termina, mas fomos orientados e dobrar a esquerda e seguir por uma rua de trás até encontrarmos um estacionamento restrito para poucos carros. Achamos e ainda conseguimos uma vaga.



O lugar era lindo demais. Caminhamos quase uma hora até a praia ao lado, chamada Paradise Cove, por ter mesmo cara de paraíso. Lá tinha um restaurante no meio da areia, onde comemos uma diversidade de frutos do mar com os pézinhos no chão. Depois sentamos na beira do mar e recuperamos o fôlego antes de voltarmos para a civilização. Enfim, voltamos para o asfalto. Voltamos para Vegas. Voltamos para casa.