5 de abril de 2012

despedida 6

Outubro de 2011.

De volta ao meu draminha da vida real, outubro chegou bem mais rápido que o previsto e tudo era motivo para pensar na despedida, que já nos espiava da esquina. Nesses últimos onze dias, eu tinha uma certa urgência em ir embora. Aquela velha história, arranca o esparadrapo todo de uma vez só e deixa cicatrizar a ferida.

Por mais que a gente tentasse não pensar no assunto, eram dois elefantes na sala. As despedidas têm disso, a gente vai remoendo. Primeiro nos despedimos dos lugares, depois dos momentos e por fim das pessoas. É um processo mais complexo do que simplesmente dizer tchau.

Pensando nisso, passamos um dia inteiro na Strip, principal avenida de Vegas. Conhecemos o hotel novo, almoçamos onde a gente nunca conseguia mesa, fomos na montanha russa, batemos fotinhos turísticas. Fizemos tudo, sabendo que de novo podia ser a última vez que fazíamos qualquer coisa juntos. Sim, eu ainda não tinha resposta.

A minha resposta foi: preciso ir para casa, conversar com a minha família e analisar a situação de lá. Em outras palavras, quero mais tempo para enrolar. Eu estava morrendo de saudade e com medo de tomar uma decisão no calor do momento. Eu, com esse meu medo de fazer a coisa errada, acabo não fazendo a coisa certa.

A gente já tinha meio que combinado que ele viria ao Brasil para o Natal. Eu disse, num ato de coragem e de insegurança ao mesmo tempo, que se eu não tivesse a intenção de retornar aos Estados Unidos, que eu achava melhor ele não ir para o Brasil. Ele concordou em silêncio, com aquela cara de cachorro sem dono que os homens fazem tão bem quando querem. Eu precisava de mais tempo, ficamos combinados assim.

Naquela terça-feira, tomamos café juntos, colocamos as malas no carro e fomos para o aerporto bem antes do horário. Eu dei um jeito de acomodar tudo, dessa vez não ficou nem um sapato velho para contar história. Vou levar tudo. Se for o caso, trago tudo de volta, pensei em voz alta. Ele me observava, até me ajudou, sem desmoronar um minuto, a melhor ajuda que ele podia ter me dado.

Fomos para o aeroporto, fiz o check in e me dei conta que eu tinha perdido o meu celular. O celular que eu coloquei numa gaveta no primeiro dia que cheguei e só coloquei de volta na bolsa antes de irmos para o aeroporto. Inacreditável. Nesse meio tempo, descobrimos que estávamos no terminal errado, o que veio bem a calhar.

Fizemos todo o caminho de volta até o carro olhando para o chão. Tínhamos um problema, que, enfim, desviava o foco de atenção daquele outro probleminha, a minha partida. Reviramos o carro e nada de achar o celular, que magicamente caiu da minha bolsa sem que eu notasse. É impressionante como a gente se desliga do mundo exterior, quando o nosso mundo interior está desabando.

Ele me levou de carro até o terminal dois e nós concordamos em ele me deixar na porta. Arranca logo esse esparadrapo. Ele desceu do carro, me entregou a minha bagagem de mão, me abraçou bem forte e eu não me lembro o que ele disse, desculpem. Mas eu me lembro bem que, quando olhei para ele, muitas lágrimas pingavam na camiseta verde bandeira. Ele nem se dava o trabalho de passar a mão no rosto. Eu fiz isso por ele. Ver ele chorando me dava um nó na garganta. Eu não conseguia nem chorar junto, por me sentir a pior pessoa do mundo.

Eu não me sentia no direito de chorar, pelo simples fato de que todas aquelas escolhas (ou falta de escolhas) eram minhas, eu tinha que no mínimo assumir as crianças. Ele entrou no carro e foi embora. Eu fiquei ali plantada no meio-fio da calçada, na frente do terminal dois, vazio, que nem eu. Fazia sol, estava calor, mas eu não sentia nada. Só o tal vazio. Peguei o avião e voltei para o lugar da onde vim. Sem mais.





2 comentários:

  1. Essa história tá cada vez melhor. Triste algumas vezes, mas linda.

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  2. É engraçado te ler e perceber que hoje as angústias são outras, mas elas permanecem ali. Porém, com uma visível diferença (para mim, pelo menos), hoje há mais segura. Esse sentimento está mais preso em dúvidas inerentes a qualquer decisão, da maior a menor. Perdeu um pouco aquela potencialização por não saber o que fazer. Hoje a escolha está feita e resta apenas uma opção: ser feliz!! [tu já leu isso antes né? =P]
    Ah, desculpa se antecipei um pouco a narrativa com este comentário. Mas precisa registrar!! hahaha

    Be Happy!! Love U!!!

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