28 de junho de 2012

despedida 7

7 de janeiro de 2012.

Naquela manhã, entramos num táxi rumo à rodoviária. O nosso ônibus saia às 8 em ponto. O voo dele era só às 3 da tarde, mas em se tratando de Jared e aeroportos, melhor não correr nenhum risco. As três horas que separam Porto Alegre de Pelotas passaram voando. Como passam todas as horas, que a gente não quer que passem.

Chegamos no Salgado Filho cedo, fizemos o check-in e almoçamos como se nada estivesse acontecendo. Falamos sobre tudo e nada que importasse. Meus pais ligaram para dar tchau para o "gringo". O pai pediu para falar com ele pessoalmente, mesmo que o coitado não entendesse nada. Ele não queria mandar recados.

Falaram apesar de não se entenderem. Afinal a linguagem é uma partícula do que pode ser a comunicação entre os seres humanos. O pai repetiu para mim o que disse para ele. Eu repeti para ele o que o pai me disse. Repetições que não me cansam quando envolvem esses dois falando um com outro. Volta logo, era o recado nas entrelinhas. O que significava o mundo para mim e para o Jared também.

Chegou a hora do embarque. Resignados, fomos até o portão. Olhamos para o painel e grande surpresa, voo atrasado por duas horas. A primeira reação foi: que ótimo, mais tempo juntos. A segunda reação foi: putz, vamos ter que nos despedir de novo. Que carma!

De qualquer forma, essa era a última vez que nos despedíamos. O próximo passo era eu criar coragem e colocar a minha bunda num avião pra Vegas. O quanto antes. O problema é que eu tinha um motivo para ficar mais tempo.

Depois de 25 anos de casados, os meus pais finalmente estavam construindo uma casa. Mais que uma casa, um sonho. Um sonho que eu fazia parte e fazia questão de ver de pé. Nem que fosse para entrar na casa e sair para o aeroporto. 

Eu queria estar lá. Eu queria me mudar para lá. Eu queria morar nesse sonho. Por um dia, uma semana, o que fosse. A previsão do final das obras era fevereiro. Então, em março eu iria. Ficamos combinados assim: final de março.

O nosso tempo extra no aeroporto tinha acabado. Fui até onde me deixaram ir. Vi ele desaparecer na minha frente, de novo. Sem muito chororô. Estava tudo bem. A tempestade tinha passado e agora era só esperar o dia amanhecer de novo. A gente continuava junto. Apesar dele estar indo embora, estávamos mais juntos do que nunca. Finalmente tínhamos uma resposta. A resposta era sim.

O Jared me disse que ele saiu do Brasil com um misto de empolgação e ansiedade, felicidade e medo. Sentou ao lado de um jogador de hockey, viajou esmagado e pensando se eu realmente tinha dito sim ou se ele tinha sonhado tudo aquilo. A resposta era sim, sim.

27 de junho de 2012

cachaça lover

Janeiro de 2012.

Como o Jared veio com um mala cheia de presentes, ele sugeriu levar algumas coisas minhas na mala que voltaria vazia. Já que nao dava para me levar, era melhor garantir levando os meus pertences! Como era verão, enchemos a mala dele com os meus casacos, para tristeza da minha irmã, que adora usar as minhas roupas. 

Depois fomos no supermercado comprar as coisas que ele queria levar: bombons, farofa e, claro, cachaça. Naquela semana, a minha amiga Laura tinha feito uma caipira ótima com Velho Barreiro. Quando chegamos no supermercado e ele viu que o tal Velho Barreiro custava em média 3 dólares, olhou para mim e disse:

- Screw your coats, I'm taking cachaça! [Azar dos teus casacos, eu vou levar cachaça!]

^^


21 de junho de 2012

pelotas

Janeiro de 2012. 

No dia primeiro fizemos um digno churrasco em família para comemorar o novo ano e o noivado. Pela primeira vez, muita coisa tinha mudado na virada do ano. Eu tinha assumido um compromisso que ia mudar a minha vida drasticamente. Porque sou uma pessoa drástica mesmo.

Apesar de ter pensado e repensado tanto, eu ainda não tinha compreendido a grandeza daquela decisão. O noivado era a pontinha do iceberg, que escondia mudança de país e casamento. Impregnados com o temido e irreal "para sempre".

Naquele ponto, eu ainda estava anestesiada. Que se dane o iceberg! Quase t
ão anestesiada quanto o Jack e a Rose, antes do Titanic afundar. Iceberg? A mala perdida do Jared chegou um dia depois do previsto e por isso adiamos a nossa viagem para Pelotas. Pelotas, minha cidade natal para quem não sabe, é parada obrigatória.

Pelotas é sempre uma maratona. Casa da vó, do vô , visitar as tias, os primos, a dinda, sair com os amigos da faculdade, almoçar com as amigas de infância. Eu quero tudo! Faço questão de ver todo mundo. E, dessa vez, todo mundo queria ver o gringo e, claro, o anel de noivado.

Além de ver todo mundo, eu quero ver todo mundo de novo. Eu quero mais tempo com aquela gente toda, que de uma forma ou de outra contava a minha históriaÉ um reencontro com o passado, para dividir as coisas do presente e assegurar que essas pessoas vão estar na minha vida no futuro. E eu na delas. Mais importante que reforçar os laços, eu diria que é dar um no duplo no relacionamento com quem a gente ama.

Os dias passaram voando e quando me dei conta, amanheceu o dia 7 de janeiro de 2012. Eu, sozinha, dar tchau para a minha vó já é tarefa difícil. Ver ela se despedindo do Jared foi péssimo. Eles não falam a mesma língua, mas se gostam muito. Acho que se unem pelo amor desmedido que sentem por mim.

Eu espero que isso não soe pedante. Posso não ser nada demais nessa vida, mas fui e sou muito amada. E o amor esta aí pra gente gritar aos quatro ventos. Eu tenho orgulho de todas as formas de amor que me transformaram na pessoa que eu sou, até as distorcidas.

Enfim, entramos no táxi, acenamos pela janela. Esses momentos de despedida com a vó, sempre grudam na minha cabeça.  É um tormento. Há muito tempo, ela me prepara para despedidas. O que inevitavelmente, nunca vou estar preparada. Por isso temos um trato, ela não pode morrer nunca.

Tá, parem de choramingar. Guardem as lágrimas para o aeroporto e todo aquele melodrama de ver o amor da vida da gente entrar num avião e voar para bem longe. Até o próximo post! :)



14 de junho de 2012

anonovonoivado

31 de dezembro de 2011.

Eu adoro Ano Novo. Eu sei, nada muda depois da meia noite, mas para mim, o Ano Novo sempre foi um sopro. Como abrir uma janela para entrada de ar fresco. Um respiro. A gente se enche de esperança, de ar, de gás. Na virada do ano em 2011 foi o contrário. Fiquei sem fôlego, sem ar, sem respiro, sem sopro.

Quem me conhece sabe que é quase impossível me deixar sem palavras. Eu não sou o tipo de pessoa que perde o rebolado, eu faço gracinha quando fico sem graça. No finalzinho dia 31 de dezembro, eu fiquei branca da cor do meu vestido.

Naquela noite, já tínhamos jantado, comido sobremesa e tudo mais. Faltavam 20 minutos para a meia noite e estávamos todos sentados na sala. O assunto tinha morrido e tinha uma tensão no ar. Eu achava que era ansiedade pela chegada do Ano Novo.

Ivete Sangalo cantava no Show da Virada e o Jared estava mais calado que criança cagada. Aí quando o Luan Santana apareceu na televisão, começou a passar pela minha cabeça que o Jared devia estar odiando aquilo tudo. Ele estava estranho demais. Devia estar morrendo de tédio.

Eu sabia que mais cedo ou mais tarde ele ia me pedir em casamento do jeitinho que o figurino manda, mas eu não parava para pensar em como ou quando seria. Era uma coisa que simplesmente não passava na minha cabeça, talvez porque outras milhões de coisas passassem.

O que eu não sabia é que dois dias antes, o Jared tinha intimado a minha irmã para uma missão quase impossível: pedir a minha mão em casamento para o meu pai. Acho que o meu pai nunca imaginou uma coisa dessas acontecendo. Nem eu, na verdade. Somos moderninhos.

Meu pai sente por nós um tipo de amor desapegado, onde o importante é a nossa felicidade. Se a gente está feliz, para ele, não importa o que ele sente, acha ou pensa. Acho que antes de ser pai e mãe, a gente ama um amor egoísta. Eles amam um amor solto, que a gente muitas vezes não entende a grandeza. 

Eu só posso imaginar como foi a conversa. O Jared tinha um discurso traduzido em português, pelo meu amigo Chico, antes ainda de vir para o Brasil. O meu pai estava sentado na cozinha, quando a minha irmã disse que o Jared precisava falar com ele. Eu estava no banho, completamente desavisada de tudo.

O Jared começou a ler o discurso em português. O que deve ter sido meio caótico, porque a minha irmã, com os nervos à flor da pele, pegou o iPad da mão dele e leu para o meu pai, que olhava pro Jared e concordava com a cabeça. Finalmente, meu pai deu uma resposta verbal, coerente com o seu amor generoso: "Se é o que ela quer, se ela está feliz, ela é quem sabe." Eu quem sabia. 

Aí minha mãe, que estava no trabalho, ficou sabendo do feito. A minha mãe é uma romântica irremediável, até quando ela se faz de durona. O Jared ganhou milhões de pontos com ela por ter falado com o pai. O único porém, é que ela não estava junto. Então, ela pediu para o Jared, através da minha irmã, que fizesse o pedido na frente deles, pois ela queria ver! Ao contrário de pais, mães se puxam.

Eu queria ter visto a cara do Jared quando foi intimado pela futura sogra a me pedir em casamento na frente da família toda. Ele achou que o pior já tinha passado com o consentimento do meu pai. Que nada!

De volta a sala da minha casa, agora 15 minutos antes da meia noite, o Jared me perguntou se eu sabia onde estava o relógio dele. Eu disse que estava no meu quarto e ele me pediu para ir buscar. O que eu achei muito estranho, mas me levantei e fui buscar porque afinal de contas ele já estava com cara de bunda. 

Quando eu estava saindo do quarto com o relógio, dou de cara com ele no corredor. Contrariada, entreguei o relógio e perguntei o que ele tava fazendo. Ele disse que estava indo no banheiro. Voltei pra sala e minha mãe puxou assunto comigo. Eu estava em pé e descalça quando ele parou na frente na televisão e me chamou para perto dele. Faltavam 10 minutos para a meia noite. Eles todos olharam para mim e para minha expressão de "não estou entendendo." Até que eu entendi. 

A minha irmã começou a filmar a cena. O Jared (ainda sem mala e usando uma camisa do meu pai) começou a falar sobre o quanto gostava de mim, o quanto eu fazia ele feliz e que queria passar o resto da vida comigo. E eu só conseguia pensar que eu estava sem sapato!  Acreditem ou não, eu cheguei a dizer "OMG, should I put shoes for this?" [Devo colocar sapatos para isso?].


Não falei que faço gracinha quando fico sem graça? A única pessoa mais fora de órbita do que eu, era o meu irmão, Dudu, que também não sabia de nada. Como se não fosse o bastante, ele ficou num joelho só, tirou o anel de noivado do bolso e disse:

"Fabiana de Castro Caldas, você quer caser comigo?". Apesar do treino, na hora o casar saiu caser. Eu tinha entendido muito bem o que caser queria dizer. Em um impulso, tirei o anel da caixa e disse SIM, YES. As duas coisas. 


Ele me abraçou e me levantou do chão, eles todos gritaram, bateram palmas e a minha mãe começou a chorar. Eu dizia para minha irmã parar de gravar. Totalmente sem rebolado. Eu não sabia nem que dia do ano era. Meia noite. Já era dia primeiro de janeiro de 2012. 

Brindamos, nos abraçamos, tiramos fotos. Eu com cara de quem acabou de levar um caldo de uma onda. Uma onda muito maior do que eu pensava. Finalmente, coloquei os sapatos e fomos para o baile de Réveillon no clube da cidade. Naquela altura, a onda já tinha passado e eu já estava linda na areia. Mal via a hora de encontrar as minhas amigas na festa, mostrar o meu anel e dar pulinhos de alegria, que nem a gente vê nos filmes. Tomamos mais champagne e dançamos.


Feliz Ano Novo, noivos!

7 de junho de 2012

português infame²

Estamos todos na sala da minha casa, discutindo algum assunto que provou certa indignação no Jared. Provavelmente, a mala perdida. No meio da conversa, ele balança a cabeça e diz em bom tom:

- MEUS DEUS!

Diante das nossas risadas, ele explica como aplicou a concordância no plural e que existem mais de um Deus. Virou lema, lá em casa.


6 de junho de 2012

turismo

Dezembro de 2011.

Passadas as comemorações de Natal, pegamos a estrada para Gramado com a Laura e o Lipe. Eu queria que o Jared conhecesse um pouquinho mais do Rio Grande do Sul. Alugamos um quarto em uma pousada simpática e passeamos pelas ruas ainda enfeitadas para o Natal Luz. Não sei se era eu, ou se toda a atmosfera estava meio mágica.

Nos dois dias que ficamos na serra, cumprimos alguns "must do's". Jantamos foundie, tomamos um bom vinho, andamos de pedalinho no Lago Negro, descemos os milhares de degraus até a base da Cachoeira do Caracol em Canela, visitamos a fábrica de chocolate e ainda comemos um café colonial daqueles. Tudo em ótima companhia! Voltamos pra casa mais gordinhos e felizes.


De volta em Encantado, também fomos nos pontos turísticos da cidade. Eu adoro ser turista, em todos os lugares. A única novidade pro Jared, foi o Viaduto 13 em Muçum. O Lipe e o meu irmão também nunca tinham ido. Às vezes, é preciso um gringo para a gente ir conhecer melhor a região em que moramos. Foi um passeio e tanto!




Nesse meio tempo, a mala com as roupas do Jared continuava perdida. Se não fosse pelo Lipe, ele estaria desfilando as roupas do meu pai pela cidade. Na verdade, muitas pessoas se mobilizaram para não deixar o gringo nú. Nosso muito obrigado a essas pessoas.

Outra mobilização na minha casa foi para o Jared fazer a barba. O barbeador dele estava na mala perdida. Ele usa aqueles elétricos porque a lâmina dá alergia. Na falta do barbeador elétrico, o meu pai e cunhado chegaram a conclusão que era melhor uma lâmina usada, pois uma nova iria provocar mais reações na pele.

Enfim, vocês tinham que ver que lindo minha mãe aquecendo água, meu pai vendo toalhinhas e cremes de barbear e o Jared se sentindo um pré-adolescente. Óbvio, eu registrei o momento épico.

Foi a semana perfeita, antecedendo um final de semana cheio de emoções. 2012 já estava chegando. Aguardem!