30 de agosto de 2012

pelotas - despedidas

Abril de 2012.

Como eu queria passar os meus últimos dias no Brasil em Encantado com a minha família, resolvi ir para Pelotas no comecinho de abril me despedir das pessoas importantes de lá. Fiz melhor, peguei um ônibus e fui direto para praia do Cassino, em Rio Grande. Para quem não é gaúcho, o Cassino é considerado a maior praia do mundo e fica há uma horinha de Pelotas. Cenário de muitos dos meus verões.

Passei um final de semana lindo com amigos queridos. Uma recarregada e tanto nas energias, com direito às coisas mais simples da vida, como andar de bicleta na beira do mar, colocar o pé na areia, encher a cara de vinho e o coração de amor.




Na segunda-feira seguinte fui para Pelotas. Leve, pronta para começar a minha romaria. Eu queria ver todo mundo. Tios, primos, dinda, amigos de infância, de faculdade. Eu queria ver todo mundo de novo, mas minha semana estava ficando cada vez mais curta.

Engraçado que eu sempre quis crescer para não ter que dar satisfação da minha vida para ninguém. Virei adulta (ou quase) e agora faço questão de dar explicações. Olha, estou indo para os Estados Unidos ficar com esse cara aqui, morar nessa casa aqui, mostrei para os meus avós com fotos e mapas. Era o mínimo que eu podia fazer.

Ainda naquela semana, juntei amigos numa mesa de bar. Umas das coisas que mais gosto no mundo. Amigos no bar. Como ainda faltava um mês inteiro, a ficha só caiu mesmo um dia antes de eu ir embora, quando dei um tchau rápido para os meus avós paternos, dizendo eu ligo para vocês e sai quase correndo antes que o meu avô começasse a chorar. Ele chora até hoje quando fala comigo no telefone. O velho me acaba!

E assim a ideia de ir embora um dia, no futuro remoto, foi tomando forma. Virou verdade naquele último abraço que eu dei nos meus amigos na porta do restaurante chinês, quando uma amiga me deu um kit de boa viagem com origamis, fotos e chocolates e outra me presenteou com um livro para ler no caminho.

É muito difícil ir embora. Muito mais difícil do que encher uma mala e partir. Exige um desprendimento que eu não tinha, que eu não tenho, que não me é nato. Um desprendiemento que eu não gosto e não quero, mas tive que aprender. Na marra.

Fui embora e levei minha avó materna comigo para Encantado. Com ela o buraco era BEM mais embaixo. Saí de Pelotas com o coração apertado, como em tantas outras vezes. Ao mesmo tempo, eu estava um pouco aliviada de ter passado por esse teste. Ainda tinha mais um mês de despedidas pela frente. Era melhor eu vestir minha fantasia de mulher maravilha. Eu só queria coragem, o resto eu já tinha.


24 de agosto de 2012

zodíaco

Ainda março de 2012.

Um dia, nós estávamos jogando conversa fora no Skype quando começamos a falar de signos. Ele, como boa parcela dos homens, acha essa história de horóscopo uma bobagem. Eu disse que até pode ser mesmo, mas que tem muitas coisas na descrição do meu signo que correspondem a minha personalidade e que ele deveria ler um dia desses.

Ao que ele, espirituosamente, respondeu: - Eu não preciso ler sobre o teu signo para saber que tu és detalhista, exigente, perfeccionista e mimada!

- [hahaha] Ok, deixa pra lá.
- Babe, eu te conheço.
- Será que chove?

Ele me conhece mesmo, muito bem. Melhor que o zodíaco e muitas vezes, melhor que eu mesma. Apesar de termos passado mais tempo separados do que juntos a gente se conhece bem, muito bem. E isso era bom e ruim ao mesmo tempo. Porém, mais bom do que ruim.

A boa notícia de março é que os Estados Unidos entrou no horário de verão, que não é no verão. Eles chamam de Daylight Saving Time - em uma tradução livre e tosca, horário de aproveitamento da luz do dia - e vai de março até novembro. Ou seja, praticamente o ano inteiro.

Enquanto isso, o Brasil saiu do horário de verão no final de fevereiro. Então, vem comigo, o Brasil atrasou o relógio uma hora e os Estados Unidos adiantou o relógio também uma hora. Resultado: a diferença no nosso fuso horário caiu de 6 para 4 horas, facilitando muito a nossa vida em diferentes hemisférios.

De qualquer forma, quatro horas ainda era muito tempo. A contagem regressiva para estarmos no mesmo fuso horário continuava. 1 mês e meio. Abril estava batendo na porta e eu já tinha algumas despedidas à vista. Aguenta coração.

16 de agosto de 2012

ataque de nervos - literalmente.

Março de 2012.

Finalmente, consegui me despedir da minha psicóloga. Para isso, tive que contar uma mentirinha, mas não encontrei outro jeito. Eu disse que ia embora do país em abril. Se ela estiver lendo este post, ficam as minhas sinceras desculpas. Como as pessoas gostam de dizer por aí, o problema não era ela, era eu. Eu não queria mais remoer a minha já moída decisão. Eu ia embora e não queria mais falar no assunto. Queria curtir o tempo que me restava em casa. E só.

Bom, se ela está me odiando por ter mentido (total covardia, eu sei), ela vai adorar saber que eu fui parar no hospital uma semana depois, com um ataque de ansiedade, que até hoje eu não entendi direito. Não sei se foi culpa pela mentira deslavada, se foi o rompimento com a terapia antes da hora certa - tendo em vista que eu mesma me dei alta, ou se foi uma reação do meu corpo por eu ter deixado de pensar/falar no assunto.

Sei que depois de um ótimo final de semana em família na capital dos gaúchos, cheguei em casa com falta de ar. Eu tinha que fazer um esforço imenso para sentir os meus pulmões cheios e satisfeitos. Uma agonia. Sai com as minhas amigas para um chimarrão e procurei não dar importância para o meu mal estar respiratório. Já vai passar.

Voltei para casa, jantei e nada de voltar ao normal. A minha mãe me perguntou mil vezes se eu estava ansiosa, se tinha alguma coisa me incomodando, isso e aquilo, e nada. Não tinha nada me incomodando, eu não estava pensando no drama de ir embora, não tinha brigado com ninguém, nadinha. Em tantos outros dias, eu tinha tudo isso e mais um pouco. Naquele domingo, eu não tinha nada. Só a tal falta de ar.

Fui dormir para passar logo, mas não passou. Deitei na cama e a minha respiração foi ficando cada vez mais curta. Quanto mais eu pensava que eu não conseguia respirar, menos eu respirava e menos ainda eu tinha sono. Em um momento, eu juro que eu cheguei a pensar que se dormisse a minha respiração ia parar. Pirada, eu sei. Inclusive, acordei a minha irmã, para deixar avisado que eu não estava muito bem e que se alguma coisa acontecesse comigo as minhas roupas eram todas automaticamente dela. Não, mentira.

Na manhã seguinte, acordei pior. Passei o dia inteirinho me concentrando em inspirar e expirar. Tão cansativo, que me fez perceber a benção que é não termos constante consciência do funcionamento do nosso organismo. O nosso corpo faz tudo sozinho e a gente, enquanto tem saúde, não perde um minuto para ver se o coração tá batendo bonitinho, se o pulmão tá se exercitando, ou se o rim e o fígado estão sendo bem seletivos. Imaginem se na correria do cotidiano ainda tivéssemos que pensar em "tudo isso".

Chegou o fim da tarde e eu ainda estava lá, que nem um cachorro sem fôlego. Assim, que minha mãe entrou em casa ela resolveu que ia me levar no hospital. Não adiantava discutir, fomos. Chegamos no plantão, e, obviamente, esperamos mil anos. O povo morrendo e eu lá com uma crise de ansiedade, todo mundo passou na minha frente, nada mais justo. Além do mais, eu tinha que aprender a ser menos ansiosa (ha-ha). 

Esperei mais de duas horas para o médico me dizer que os meus pulmões estavam lindos, que eu tinha mesmo o que todos nós já sabíamos. Diante da minha cara de frustração, além de ele me receitar um remedinho para acalmar os ânimos, ele ainda me deu um conselho: - pensa positivo que tudo vai melhorar. Eu mereço, não mereço? De qualquer forma, ele foi fofo para um médico plantonista.

Tomei as balinhas calmantes e tenho passado bem desde então. Guardei umas de reserva para futuras emergências. Vai saber quando o corpo da gente resolve querer chamar atenção ou nos desacelerar um pouquinho. Se você chegou ao fim desse post, respire bem fundo. É um privilégio e tanto.


9 de agosto de 2012

conta de fadas

Março de 2012.

Fairy tales MY ASS! Eu sei que a nossa história parece um roteiro barato de uma comédia romântica previsível e que todo mundo torce para um final feliz. Até eu torço para um final feliz, é da nossa natureza. Fomos criadas entre cinderelas, abobóras, principes e carruagens. Fomos condicionadas a acreditar em sapatinhos de cristais e felizes para sempre.

Acontece que a gente cresce e aprende da maneira mas dicífil que não somos princesas e que não existem sapos a serem beijados e sim sapos a serem engolidos. Somos pessoas reais e enfrentamos os altos e baixos da vida com a cabeça erguida, mesmo sem ter coroa para equilibrar. Somos de verdade e não existe ilusão melhor que verdade, por pior que a verdade seja.

Para começo de conversa, tenho mãe, não tenho madrasta. Mãe é o vínculo mais difícil de quebrar. Mãe é fod*, com o perdão da palavra. Haja príncipe e cavalo branco para fazer a gente ir morar longe da mãe.Tenho uma irmã, que não é má, apesar de ser um pouco general, só pensa no meu bem e faz de tudo para tornar a minha vida mais fácil, para me tornar mais fácil. 

Tenho um irmão caçula, uma avó risonha, um pai espirituoso, um cachorro preguiçoso e nunca estive presa numa torre. Tenho uma carreira, um punhado de amigos e não preciso lavar o chão de ninguém. Mas essa parte da história, ninguém nos contou. No final, todas nós queremos ser beijadas, ter o feitiço quebrado e sermos libertadas do nosso cotiadiano de reles mortais.

Por muito tempo, tive um conflito enorme com isso. Parte de mim queria ser humana parte de mim queria ser sereia. Pobre Ariel. Eu queria viver o conto de fadas, sem tirar os meus pés do chão. Finalmente, me rendi. Parei para observar as pessoas ao meu redor e me dei conta que histórias de amor acontecem todos os dias. Sem glamour, mas com brilho no olhar. Sem varinha de condão, mas com mágica na ponta dos dedos.

Todo mundo guarda um grande amor numa caixinha ou vive um grande amor, com todos os tropeços dos quais são feitos amores verdadeiros. Apesar de ter morado muitos anos em Encantado, não sou princesa, não tenho príncipe, mas tenho meu maior tesouro, um baú de possibilidades embaixo da cama. Quem escreve a minha história sou eu. E a minha história não tem fim. Ser feliz é um caminho.


2 de agosto de 2012

passagem de ida

Março de 2012.

Melhor dizendo, passagem de ida. Março chegou e expirou o meu tempo. Eu disse que ia voltar para os Estados Undos em março, quando a casa dos meus pais estivesse pronta. Mas a casa não estava pronta. Achamos que mais um mês seria tempo suficiente e resolvemos comprar as passagens para abril. Final de abril.

Aí a minha mãe disse, "ah fica até o Dia das Mães". Aí, quando mãe fala, acontece, ou quase. Surgiu uma viagem de negócios no trabalho do Jared, no primeiro final de semana de maio. Se comprássemos a passagem pra final de abril, no final de semana seguinte ele iria viajar e eu ia ficar sozinha. Ah não!

Então, vamos comprar a passagem para maio. Achamos preço e conexões bons para o dia 12. Um dia antes do Dia da Mães. Aí ela disse, em tom de brincadeira, ah então já fica pro meu aniversário. 15 de junho. Mas não teve jeito. Não dava para adiar mais essa história. 12 de maio seria.

Quando ele finalmente comprou a passagem, foi ao mesmo tempo um alívio e uma angústia. Um alívio porque ele já estava ficando ansioso e frustrado, o que não ajudava em nada no nosso relacionamento ainda à distância. E uma angústia porque agora era oficial e a partir do momento que se tem dia e hora marcada, automaticamente se começa mais uma contagem regressiva. Na verdade, duas. Uma boa para reencontrá-lo e uma ruim para deixar a família e os amigos. 

Lá vamos nós, para mais uma volta na montanha russa dos sentimentos contraditórios. A minha sorte é que eu sempre gostei de aventuras. Nos dias que se sucederam à compra da passagem, sonhei quatro dias seguidos com malas, bolsas e sacolas. Em todos os meus sonhos, eu estava em lugares aleatórios juntando as minhas coisas e colocando em malas. E, claro, as coisas não cabiam. Total trauma!

Ter uma passagem só de ida a minha espera era a coisa mais estranha que eu já tive que lidar no meio dessa novela toda. As expressões ida sem volta, destino final, para sempre, me inquietavam dia e noite, noite e dia. Em outras palavras, filmes de romance me atormentavam mais que filmes de terror. 

Esse engasgado só passou quando fui visitar uma amiga de infância e a mãe dela matou a minha charada. "Não te prende no para sempre", disse a mãe da Vê, bem casada a quase 30 anos. "Isso não existe. Vive o hoje." Ela me disse aquele tipo de coisa que a gente sabe, mas precisa ouvir. Ela estava mais do que certa, independente da nossa vontade, para sempre, não existe mesmo. É um ilusão que às vezes nos incomoda e  outras nos conforta. 

Na realidade, para sempre, não é uma opção, não é uma realidade. Para sempre, é uma expressão inventada por algum humano ambicioso que queria mais. Seja mais tempo ou controle do tempo que não nos pertence.

Um viva ao nosso para sempre hoje. Porque amanhã ou depois, já cantava Nenhum de Nós, tanto faz se depois for nunca mais. Nunca mais.