28 de fevereiro de 2013

tombos da vida

21 de setembro de 2012.

Os avós das crianças que eu cuidava me adotaram como parte da família nos dois anos que eu estive por perto. Eles são o casal de avós mais arbitrários que existe no mundo. Todos os anos, eles passam uma temporada em Mammoth Lakes, um resort de esqui no norte da Califórnia, e nos convidaram para passar um final de semana com eles, já que Vegas fica relativamente perto.

Eles ainda não conheciam o Jared e, mesmo depois de casada, a opinião deles era muito importante para mim. Porque eles são essas pessoinhas super descoladas, vividas, viajadas e sinceras. O Mongok (apelido do avô) estava ansioso para fazer um interrogatório no Jared desde o começo do namoro!

Fato é que todo mundo gosta do Jared. Não sei, eu achava que todo mundo gostava de mim, mas definitivamente perdi meu posto para ele. O Jared ficou meio receoso com a ideia de passar um final de semana inteiro com "avós" que não eram os nossos, mas, no fim das contas, eles nos deram um cansaço e tanto! 

Quinta-feira a tarde, deixamos o Chima no hotel para cachorros e pegamos a estrada para Califórnia. Pegar a estrada para Califórnia é uma combinação mágica de palavras. Uma das minhas coisas favoritas de fazer nessa vida em Las Vegas.

Chegamos de noite, depois das longas seis horas de viagem. A nossa aventura começou mesmo só na sexta, quando fomos para o Yosemite National Park e caminhamos até o topo da Great Sierra Mine. Jantamos no tradicional restaurante mexicano da região e fomos dormir exaustos.



No sábado, eu tive a brilhante ideia de fazer mountain bike. Sim, a ideia de gênio foi minha. No inverno, as montanhas em Mammoth são tapadas de neve e atraem milhares de turistas que vão andar de esqui. Nas outras estações, eles transformam essas montanhas em trilhas de ciclismo. Extremamente radicais.

Eu fui lá toda bonitona, de shortinho, camisa jeans, achando que eu ia passear de bicicleta na montanha. Fomos de teleférico até o topo e perguntamos qual era a trilha mais fácil. Veja bem, perguntamos qual era a trilha para iniciantes! As pessoas ao redor com roupa emborrachada, joelheira, cotoveleira, capacetes de fórmula 1, câmeras acopladas nos capacetes. A coisa era muito séria. 

Acontece que eu não tenho medo de quase nada. Antes de o Jared abrir a boca para me dar instruções eu já tava a mil na descida, totalmente sem controle. As pessoas descem freando o tempo inteiro! Eu só descobri isso quando eu já era tarde demais. Nos primeiros 30 segundos de mountain bike, eu virei uma minhoca de areia, toda estatelada no chão. O Jared desceu correndo, com um olho azul maior que o outro. 

Ele ficou tão nervoso, que eu fiquei nervosa junto, ainda com a adrenalina correndo pelo meu corpo. Nisso, vem um dos instrutores para ver se tava tudo bem. Eu, que também não tenho vergonha de quase nada, comecei a querer voltar pro chão de tanto constrangimento. Que vergonha! E ninguém ria. Gente, to bem, sacode a poeira e vamos rir. Mas eles não riam, eu bem que podia ter me matado, quebrado um braço ou uma perna, mas o meu ego estava mais ferido que o meu físico.

Dispensei o instrutor, porque eu tava bem mesmo, mas ele insistiu que eu fosse até o posto de atendimento fazer curativos. Foi um esparramo de Fabiana no chão, esfolei a mão, o cotovelo, o quadril, as coxas e o joelho. Deve ter sido lindo de se ver. Tão lindo que durante a queda eu ouvi alguém gritando OH SHIT!

Não tinha jeito, tínhamos que descer o resto da montanha. Nessas horas, o meu corajoso ser sumiu de mim. Bem que dizem que caindo é que a gente aprende. Virei a pessoa mais cuidadosa do mundo e levamos um tempo enorme para chegar na base. Em minha defesa, até o Jared tava meio assustado em alguns trechos.

Fizemos curativos e resolvemos andar numa trilha "fácil" até o centro da cidade. Nessa trilha fácil,  eu cai mais 249 vezes na areia fofa e o Jared se abraçou numa árvore depois de uma curva. No meu último tombo, eu finalmente comecei a chorar. Eu simplesmente não aguentava mais cair no chão. Eu não sou de dar o braço a torcer, mas eu não queria mais andar naquela bicicleta do mal. 

Finalmente chegamos na casa da Meemaw e do Mongok (avos). Eu um trapo humano, sujo e rasgado fui tomar um banho também do mal. A água do chuveiro caindo nos machucados doeu tanto, tanto, tanto que eu só tive coragem de tomar banho de novo na segunda-feira. E mesmo assim, o Jared teve que lavar o meu cabelo, porque a palma da mão era o que mais doía.

Mesmo assim, no fim da tarde fizemos uma caminhada curta para um monumento da natureza. Em uma tradução tosca, a Pilha do Diabo (Devils Postpile), é uma formação rara e famosa no mundo geológico. O avô das crianças era  professor de geologia de uma universidade, apesar de aposentado ainda faz questão de dar aulas para quem estiver interessado no assunto.




Domingo, antes de irmos embora, eles fizeram questão de levar o Jared para comer uma torta também famosa na região - Pie on the Sky. É uma delicia de ritual, que eu já tinha experimentado na minha primeira visita a Mammoth, em 2009. Depois da extravagância gastronômica, fomos para a trilha de despedida chamada Mosquito Flat. O nome é estranho, mas o lugar é um paraíso.



Antes da noite cair, nos despedimos deles e pegamos a estrada de volta para casa. Não preciso dizer, que eles mais do que aprovaram o maridinho e o Jared adorou eles da mesma forma. Coisa boa, quando as pessoas que a gente gosta se gostam, né? 

Na volta, dirigimos pelo Death Valley, que chama atenção pela imensidade de nada. O vale é um vazio, abaixo do nível do mar, tão seco e quente que pouca vida se prolifera e, mesmo assim, não deixa de ser um lugar inspirador, que nos brindou com um lindo por do sol.


Quando chegamos em casa, além do meu estado crítico e deplorável pós tombo épico, eu também tinha ganhado uma unha roxa entre uma escalada e outra. Não dá nem pra dizer "antes de casar sara". No entanto, nada de aventuras nos meses antecedentes ao casamento de verdade. Preciso chegar no altar inteira. Me desejem boa sorte.


21 de fevereiro de 2013

marido, marido.

15 de setembro de 2012.

Nada mudou muito no nosso dia-a-dia depois de oficialmente casados. As alianças foram parar numa gaveta, porque a do Jared tinha "diamantes" pavorosos e a minha me deu alergia, dermatite de contato. Sou uma rainha destronada pessoas, não posso usar bijuteria. Compraremos alianças de verdade para o casamento de verdade.

Uma coisa boa foi que eu já me livrei da palavra noivo, dizer "meu marido" é de fato muito mais legal, apesar de ainda soar estranho. Gente, eu tenho um marido agoraÉ bizarro. Mas enfim, ele é um amor de marido. Marido, marido, marido. Desculpem, estou tentando desgastar a palavra. Parece aquele tênis branco recém comprado. Sabe?

Maior que o status, de marido e mulher, mudou o meu sobrenome. Eu nem queria entrar nesse mérito, porque já esgotei o meu latim falando nesse assunto, mas resolvi não deixar vocês de fora. É simples, a dialética explica. O Jared fincou pé que eu tinha porque tinha que trocar de nome. Eu, por minha vez, achei que era uma decisão minha e só porque ele fincou pé eu finquei dois. Onde já se viu?

Quanto mais ele dizia que eu tinha que trocar de nome, mais eu dizia que não ia trocar. Não que eu tenha algum problema com isso, até acho que faz parte do contrato, da instituição da família, enfim da coisa toda, mas essa variação da espécie - homem - a gente não pode deixar se expandir muito.

Até que um dia, ele foi mais esperto do que eu e disse assim: "tem razão, é o teu nome, a tua identidade e eu não vou mais fazer disso um problema. Eu gostaria muito que tu adotasse o meu nome, mas a decisão é tua." Pronto. 

Preciso dizer? Problema resolvido. Porque a nossa variação da espécie se derrete quando eles simplesmente são fofos, compreensíveis, coerentes e maduros. E deixam a gente fazer o que a gente quer, devo acrescentar. E muitas vezes, o que a gente quer é fazer o que eles querem. Poucas vezes, mas enfim, vocês entenderam.

Tudo isso para dizer que agora me chamo Fabiana Caldas Ubben. Muito prazer. Ah, se fala Ãbben e não Úbben. As pessoas já não falam o Fabiana certo, agora tem mais o Ubben para ser mal pronunciado. Difícil, viu. Esses dias, uma mulher chamou o Jared de Mister U-b-b-e-n. Literalmente, ela soletrou o sobrenome dele porque não sabia como dizer. Eu ri.

Ironicamente, o nosso primeiro programa de casados, com o mesmo sobrenome e tudo, foi uma coisa super começo de namoro. Não disse para vocês que a gente tinha que casar para poder namorar? Esse é um exemplo ótimo. Fomos em um parque de diversão, daqueles de filme americano com banquinhas e bichos de pelúcia por toda parte. 

Sabe quando o mocinho ganha o brinquedo para mocinha. Pois é, o Jared ganhou uma girafa enorme para mim. Palmas, pulinhos e gritinhos meus. Tinha que acertar um anel na boca de um das várias garrafas de coca-cola. Demorou, mas ele conseguiu!

            

Não andamos na roda gigante porque a gente é radical. Andamos no Kamikaze! E tivemos que arrumar alguém para cuidar da girafa gigante, mas foi tudo muito lindo. Espero que, mesmo casadíssimos, a gente consiga ser namorados para sempre. Viram como eu sei ser bonitinha de vez em quando?!


14 de fevereiro de 2013

casei

8 de setembro de 2012.

Isso mesmo, casei. E digo pra vocês que foi mil vez mais fácil do que finalmente escrever esse texto. Parênteses para minhas mais sinceras e esfarrapadas desculpas. Estou de volta e voltando ao que interessa casei e não doeu nada. Se soubesse, eu já tinha casado antes e evitado toda essa novela mexicana. Bom, mas aí não teria blog. E o blog é essa coisa bonitinha na minha vida.

Desde o começo dessa aventura, a gente sabia que ia acabar no altar. Não tinha escolha. Precisávamos casar, para poder namorar. Sendo assim, dois meses depois que eu cheguei, nós começamos a pensar em concretizar essa ideia, para bem de eu poder trabalhar, estudar e ter uma vida "normal". Não contem essa parte para a imigração.

Como já falei para vocês, eu disse que eu queria casar só depois do meu aniversário. Afinal, eu ainda sou/era/continuo sendo muito nova para casar. Casar com 26 era melhor do que casar com 25. O Jared então falou que deveríamos casar no sábado seguinte ao meu aniversário.

Dia 8 de setembro, coincidentemente o dia que eu cheguei nos Estados Unidos pela primeira vez. Exatos quatro anos atrás. Quem imaginou? Eu, nunca. A pessoa que chegou nesse país em 2008, com certeza não é a mesma pessoa que vos escreve agora. 

Contamos para os nossos pais, amigos mais chegados e decidimos não fazer muito alarde (leia-se não publicar no Facebook e outras redes sociais). Os pais dele fizeram questão de vir e foram as nossas testemunhas. No entanto, todo mundo foi bem avisado que era apenas um procedimento burocrático. No big deal! Super romântico [1].

Marcamos o dia e a hora no cartório - 14 horas do dia 8 de setembro de 2012. Compramos alianças no supermercado por 10 dólares cada uma. Naquela mesma semana comprei um vestidinho branco, que o Jared só viu quando eu estava pronta. Tradição é tradição. Falamos com os meus pais e irmãos no Skype e saímos de casa uma hora antes para não ter problema. 

Na metade do caminho, o Jared parou num supermercado para comprar champagne. A irmã dele, Kristin, que também veio, desceu junto. Eles demoraram tanto que eu quase achei que algo estava errado. Daqui a pouco, vem ele com garrafas de champagne e ela com um buquê de flores amarelas. A demora foi por causa do buquê. Eu teria esperado mais outra hora por essa surpresa fofa. 

O buquê despertou a noiva em mim da maneira mais clichê que existe. Eu não larguei ele um minuto. Acho eu que existe uma relação esquisita entra mulheres e flores. Mesmo aquelas que não gostam de flores. Não sei, mas eu estava muito feliz com meu buquê improvisado.

Nesse vai e vem, já tinha passado das 13h30m e tínhamos que estar lá dez minutos antes do horário marcado. Apesar de o Jared ter dirigido o mais rápido possível, acabamos enfrentando o nosso primeiro engarrafamento de todos os tempos em Las Vegas. Óbvio, né?! Não tinha Cristo que ia fazer a gente chegar no cartório a tempo. Eu achei engraçado ver o Jared ficar nervoso, desabotoando a gola da camisa.

Se a gente não achar um lugar para casar em Las Vegas, a gente não acha nunca mais. Ligamos para o cartório, dizendo que estávamos presos no trânsito. Eles tinham outra "vaga" às 14h40m. Problema resolvido. Dava tempo de casar e ir para o bar ver o jogo de futebol americano do time do futuro marido. Super romântico [2].

Com esse contratempo, acabamos chegando bem antes da hora remarcada. Estava um dia lindo e resolvemos bater umas fotos. A Kristin foi nossa fotógrafa e, graças à confusão toda, temos muitas fotos lindas desse dia que nós tentamos fazer pequeno, mas que se tornou enorme dentro da gente. Maior do que nós dois juntos. Não era para ser nada demais, mas inevitavelmente, foi tudo demais, apesar de simples demais.

A cerimônia em si durou cerca de 15 minutos. Vapt-vupt. Creio que a juíza de paz não tinha um dente, mas procurei me focar no que realmente importava: meu futuro marido tinha todos os dentes na boca e um sorriso enorme no rosto. Repetimos as palavras dela. Yes, Yes. Eu claro, não entendi um pedaço e dei aquele enrolation, achei que ia passar desapercebido, mas caímos na risada. Super romântico [3].

Casamos. Entre lágrimas, abraços e sorrisos sem fim. Bridamos e fomos assistir ao jogo. O time da Nebraska perdeu, mas nem esse fato terrível conseguiu deixar o Jared para baixo. Afinal, a gente tinha ganhado o dia e muito mais.

Confesso que para quem não queria casar, eu estava bem feliz. Isso sem falar que esse ano vem mais casamento por aí. Casamento de verdade, com véu e grinalda. Até semana que vem, people. =P









Ps.: Happy Valentine's Day!