30 de maio de 2013

brasil às escondidas

3 de janeiro de 2013.

O furacão Mielnik deixou a minha casa no dia 2 de janeiro de 2013. Eles foram para o aeroporto e eu fui terminar de arrumar as minhas malas. Abri a caixinha do correio e lá estava o meu horroroso Green Card. Chegou bem a tempo de ir escondido comigo para o Brasil.

Olhei para o Green Card e me lembrei da tamanha mentira que eu tinha contado para todo mundo. Eu disse para a minha família e amigos que a entrevista era dia 7 de janeiro. Eles não tinham ideia que eu já estava com o Green Card em mãos. 

A minha vó era a única que sabia. Isso porque ela andou no hospital na semana anterior ao Natal e eu resolvi contar o segredo para ela se animar e fica boa logo. Ela foi uma cúmplice e tanto.

Chegou o dia 3 de janeiro e eu já estava com a adrenalina nas alturas. Como sempre, teve choro no aeroporto em Las Vegas. Eram só 25 dias, mas a gente não aprende. Já deve estar programado no nosso inconsciente.

O meu voo fazia uma conexão ridícula em Detroit, Michigan. O que não teria sido tão ridículo se a comissária de bordo tivesse conseguido abrir a porta da aeronave logo que aterrissamos. Ela demorou 45 minutos para abrir a porr* da porta, o que também não teria sido tão terrível se eu tivesse mais de uma hora entre um voo e outro. 

Trocando em miúdos, chegamos em Michigan 6:45. O meu voo para o Brasil era às 7:45. A aeromoça infeliz só consegui abrir a porta do avião às 7:30, trinta minutos após o começo do embarque do meu voo para São Paulo. Vocês imaginem uma pessoa em cólicas, já claustrofóbica dentro do avião. Sai a Fabiana correndo aeroporto a fora, se despencando, jurando que nunca mais anda com um monte de bagagem de mão. Fui a última a embarcar e tive que passar pelo corredor da morte, sob os olhares críticos e analisadores de todos os passageiros já devidamente acomodados, mas pouco me importei.

O resto da viagem foi tranquilo, tirando a minha comum ânsia de vômitos logo que chego ao Brasil. Fico com os nervos a flor da pele, sempre. Em Porto Alegre, a ansiedade só aumenta e me dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Dessa vez, não tinha ninguém no aeroporto me esperando. Juro por Deus que a corrida de táxi entre o aeroporto e o apartamento da minha irmã demorou mais que o voo inteiro. Eu já não me aguentava mais.

Cheguei no prédio da Silvana e pedi para o porteiro não me anunciar, expliquei a situação e ele concordou. Eu nem sabia se ela estava em casa. Então, o porteiro, com uma sutileza e tanto, ligou para o apartamento dela e disse que era engano logo que ela atendeu. Subi no elevador com as minhas três malas gigantes. Coloquei as malas na frente da porta, apertei a campainha e me escondi que nem criança arteira.

Ela abriu a porta com a cara mais confusa do mundo e só caiu a ficha quando ela me viu no corredor e disse (com mais sutileza que o porteiro): que isssssssooooo? Sou eu, eu respondi. Ela me abraçou tanto que achei que ela não ia me largar nunca mais, naquele abraço já tinha valido a pena a surpresa toda, mas ainda faltava a segunda parte.

Resolvi dormir em Porto Alegre aquele dia e ir para Encantado no sábado de manhã bem cedinho. Sábado de noite era formatura da Bruna e a Laura, que se formava na próxima sexta, estaria lá também, junto com a turma toda de gordinhas.

Sábado de manhã, pegamos o ônibus para Encantado e o meu coração voltou a beirar um ataque. Chegamos na rodoviária morrendo de medo de alguém nos ver. Encantado é um ovo. Pegamos um táxi e pedimos para parar na frente da casa do vizinho. Batemos na porta da casa dos meus pais, ninguém atendeu. De repente, o meu pai aparece do lado da casa. Ele nos viu, apertou os olhos, colocou as mãos na cintura e disse: que isssssssoooo?? Igualzinho a minha irmã.

A minha mãe e o meu irmão não estavam em casa. Então, eu me escondi na casa da vizinha e esperei. Esperei. Pobre coração, não aguentava mais esperar. Finalmente, eles chegaram. Fui lá, bati na porta e o meu irmão abriu. Ele ficou parado de boca aberta me olhando. Nesse meio tempo, a minha mãe veio ver quem era. Assim que ela me viu, ela fez uma cara de pavor e se virou de costa. Ela chorava e perguntava para o meu pai o que estava acontecendo. Ele, que já tinha superado o susto, se curvava de tanto rir. 

Mãe, sou eu, me olha, eu dizia. Até que ela me olhou e inciou um dos diálogos mais sem sentido que eu já participei na vida:

- O que aconteceu?
- Nada mãe, tá tudo bem. 
- O que tu ta fazendo aqui?
- Vim te visitar, mãe.
- Como é que tu veio?
- De avião.
- E tu já vai embora amanhã?
- Não mãe, vou ficar o mês inteiro aqui contigo.

Aí, ela começou a voltar a si. Era verdade, não era sonho. O choro virou riso e eu fui devidamente afofada, beijada, esmagada. Eu estava em casa, mas aquele dia tinha recém começado. Depois de conversar bastante, abrir presentes e tudo mais, acabei pegando no sono no sofá. O cansaço me venceu.




A formatura era às dez da noite, me arrumei do jeito que deu e fui. Afinal de contas, eu só queria estar lá e poder dividir com elas essa conquista. Cheguei antes da formanda e causei uma tensão no salão. Todo mundo levou um susto quando me viu. Eu realmente não estava nos meus melhores dias de beleza.

A Laura, formanda da semana seguinte, foi a primeira a me ver. Eu tentei me esconder um pouquinho, mas não teve jeito. Foi muito legal ser tão bem recebida. Sentei numa mesa e ficamos todos na expectativa da chegada da Bruna. 

Quando ela chegou, todos na mesa levantaram e fizeram fila para o abraço. Eu me escondi atrás do namorados da Jô e da Laura. O Lucas, achou que eu estava atrás dele, abraçou ela e disse "surpresa", mas atrás dele estava o Lipe e a Bruna ficou pensando "que surpresa é essa, o Lipe?". Só depois de receber os parabéns do Lipe que ela me viu! Ela engasgou, segurou o choro e disse: Caldas, meu melhor presente de formatura. Meu rio de lágrimas já tinha secado. Rimos, nos abraçamos de novo e curtimos uma festa e tanto.



Eu sempre digo que tive muita sorte na vida, com a minha família e os meus poucos e bons amigos. Já se passaram dez anos, cada uma numa cidade, numa profissão, entre um relacionamento e outro. Nesses dez anos de amizade, viajamos, fizemos novos amigos, terminamos faculdade, trocamos de emprego, até brigamos um pouquinho, mas o carinho umas pelas outras não muda nunca. Uma virou médica, outra biomédica, tem uma arquiteta, uma publicitária e agora uma advogada. E tem eu, com um orgulho danado de todas elas. 

Queridos leitores, é com muito prazer que lhes apresento as minhas bridesmaids. Junto com a minha irmã, é claro, que será a minha dama de honra. Me diz se elas não são demais e que não vale a pena atravessar o continente por momentos como esse? Não vejo a hora de dividir mais alegrias com vocês. Mentira, não vejo a hora de ver vocês todas vestidinhas de amarelo, parecendo um omelete de piriguetes! :P


Um comentário:

  1. Pra variar chorei e ri e ri muito com esta história que eu já conhecia, mas foi tão bom ler quanto ouvir os detalhes. Já falei que sou fã do teu blog? Tanto que fiquei em pânico de não poder comentar!! haha
    Amooo

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