27 de junho de 2013

my valentine

Fevereiro de 2013.

Abracei o meu novo fevereiro e resolvemos sair para jantar no nosso primeiro Valentine's Day juntos. Lição aprendida: nunca saia para jantar no Valentine's Day em Las Vegas. Os nossos restaurantes preferidos estavam todos lotados, mas por fim conseguimos fazer uma reserva em um restaurante italiano que tínhamos ido nos primórdios do namoro.

Naquele dia lá em 2010, comemos tanto e tomamos tanto vinho que chegamos em casa imprestáveis. Nada romântico. Dessa vez, pegamos mais leve na massa e no vinho. Tava uma delícia, mas no ano que vem vamos jantar no dia 15, ao invés do dia 14.

O que eu acho mais legal do Valentine's Day é que tem um conceito diferente do Dia dos Namorados. É um dia dedicado ao amor, seja ele entre casais, pais e filhos ou até entre amigos. Não se limita apenas ao amor romântico e sim ao amor na sua forma mais pura e simples. Nesse clima, olhem o nosso Chima, o melhor presente no meio dos presentes todos.



Menos de um semana depois do dia do amor, o meu amor se foi para a China! Sim, vocês leram bem, para China. Foi passar uma semana inteira lá à negócios. Do outro lado do mundo, com um fuso horário de 15 horas. Mais fuso horário na nossa vida. Eu fiquei louca para ir junto, mas a minha cota de passagens internacionais estava no limite.

No que se refere ao paraíso de compras, a China está para os Estados Unidos, assim como os Estados Unidos está para o Brasil. Os brasileiros adoram vir para cá se perder entre um outlet e outro. O Jared voltou para casa fascinado com os produtos da China a preço de nada.  Eu ganhei varias coisas lindas made in China, apesar de eu morrer de remorso pelas condições de trabalho, mas não vou entrar nesse mérito. 

Enfim, aquela semana foi longa demais. Agora eu entendo um pouquinho de o Jared reclamar tanto por eu ter ido para o Brasil por três semanas. O tempo não anda sem ele em casa. Não durmo direito, o Chima fica latindo no meio da noite por qualquer barulho e eu morro de medo de ficar sozinha nessa casa grande. Sou guria de apartamento, gente. Aqui não tem perigo, mas as portas nunca viram tantas trancas como naquela semana. Um fiasco!

No entanto, quando ele me mandou fotos do cérebro de pomba que ele COMEU (!), eu juro que fiquei um pouco agradecida por estar em terras ocidentais. O Jared em país estranho come até pedra. Não tenho esse senso de aventura estomacal que ele tem. Morri de nojo!




A única coisa boa foi que eu li um livro inteiro na ausência dele. Talvez o meu lado intelectual precise de mais semanas sem Jared. Azar do lado intelectual. Eu queria ele de volta da China pra já. Demorou, mas ele voltou no melhor super empolgado Jared que eu conheço, cheio de histórias para contar. Quase que nem eu. Quinta que vem tem mais.


21 de junho de 2013

o país que merecemos

Hoje em dia.

Peço licença a vocês para um outro desabafo. Acho que nada faz muito sentido e tudo fica pequeno diante das imensas manifestações que se espalharam por todo o Brasil e pelo mundo. Por isso, sinto uma urgência em me expressar humildemente sobre o assunto. Não sou socióloga política e tenho só um pouquinho de noção para saber que muitas interpretações desse ato fogem do meu conhecimento. 

Tenho devorado muitos artigos na  Internet sobre o assunto e se o movimento está sendo apropriado pela direita, mas começou na esquerda, se é apartidário, anti-partidário, totalitário, não sei o que dizer para vocês. Tenho os meus achismos do que tudo isso deveria ser (idealmente), mas não quero levar ovo através da tela do computador. Então vou me conter.

O que começou com um movimento estudantil virou milhões de pessoas nas ruas por tudo aquilo que temos direito. As causas dos protestos se perderam. São tantas que não cabem nos cartazes. Os 20 centavos viraram a revolta de um povo que (SIM) não tem o que merece e é sobre isso que eu quero falar.

Diante do vandalismo, que tira o foco das reais manifestações, e do oportunismo de grupos mal-intencionados, ou de pessoas mal intencionadas e/ou vaidosas, quero que fique claro, para aqueles que afirmam que o povo brasileiro é burro e que tem o governo que merece que não somos burros e não temos o governo que merecemos. 

Os brasileiros gostam de falar mal dos brasileiros. Como se engrandecessem ao dizer que está tudo errado mesmo, não tem jeito, o povo brasileiro não tem educação, é desonesto, vive furando fila, vendendo voto e levando a vida no jeitinho brasileiro. Você não faz parte do povo brasileiro? 

Se você pega um bebê americano e um bebê brasileiro, qual deles é mais educado? As pessoas são um reflexo de experiências e comportamentos ao quais foram expostas durante a vida. Simples como 1+1. O povo brasileiro não é geneticamente mal educado. Não temos a educação que merecemos. 

Sem educação, não somos competitivos no mercado feroz de trabalho. Não temos chance. A falta de educação que faz um sujeito jogar papel no chão é a mesma falta de educação que faz um sujeito sem base familiar, estrutura social, condições dignas de vida, virar bandido. Não que se justifique, mas é com certeza a raiz do problema e vocês sabem disso. A gente sabe disso. Por causa dessa falta de educação, não temos as ruas limpas que merecemos. Sem sujeira, nem sangue.

Somos frutos de um país onde o governo presta um desserviço à população. Pagamos impostos e mais impostos e não recebemos nada em troca. Não sobra nem um troco. Somos roubados todos os dias pelo próprio governo ou pelos filhos da falta de educação. Assassinamos o português e somos assassinados à mão armada. Não temos a segurança que merecemos.

A sistema de saúde do Brasil está doente. O senso de justiça é precário. A frase a justiça tarda mas não falha ganhou outras dimensões no nosso país. Furamos a fila, porque as filas são grandes demais. Furamos a fila por sobrevivência tantas vezes, que virou hábito. Não temos a agilidade que merecemos. Muito menos a saúde que merecemos. Ou o sistema judiciário que merecemos.

Quanto aos desonestos, vocês acham que não existem pessoas mau caráteres em outras sociedades? Sim, em todo pomar tem laranja podre. A diferença é que o brasileiro para soar intelectual e de certa formar se excluir dessa população tarjada de desonesta aponta essas laranjas podres, faz suco e serve para o mundo inteiro beber. Não merecemos a imagem que temos de nós mesmos.

Enquanto os outros povos se fazem representados pelos seus melhores cidadãos e se exaltam, a gente mete porrada no nosso próprio povo e deixamos essas pessoas desonestas (por n motivos) serem o rótulo da nossa sociedade. Não temos a estampa que merecemos.

Cada vez que uma pessoa no conforto da sua sala de estar abre a boca para falar mal do jeitinho brasileiro, essa pessoa reforça uma afirmação que não, digo NÃO, representa 197 milhões de pessoas. Não somos todos desonestos. Não merecemos essa tarja.

Essas atitudes depreciativas não ajudam ninguém. Pelo contrário, abaixam a nossa auto-estima como nação, nos desintegram, nos enfraquecem. colocam um ponto de visto distorcido nas futuras gerações. Por isso, dobre a sua língua para falar do seu povo. Não merecemos perpetuar essa cultura.

Somos um povo que luta contra a maré desde que se conhece por gente. Um povo que luta contra o próprio povo, seja uma luta de classes, raças. religião ou preferencia sexual. Precisamos parar de nos atacarmos. Não merecemos essa guerra social.

Quem sabe um dia, o Brasil fique todo do jeitinho brasileiro. O jeitinho certo, o jeitinho que a nossa gente de bem quer. O jeitinho que deveria ser. Para que esse dia, chegue logo, peço a todos os brasileiros honestos que vão para as ruas se representarem. Não merecemos os representantes que temos.

Se recusem a ser um esteriótipo. Se recusem a serem representados pelos desonestos, pelos mal educados, pelos vândalos das ruas ou pelos os imperadores dos sofás. Não merecemos o país que temos. Merecemos muito mais. 


Ps: Só não escutem a nova música do Latino, porque dá mesmo vontade de mudar de pátria. 

20 de junho de 2013

casa

Fim de janeiro, começo de fevereiro de 2013.

A viagem de volta para Vegas foi relativamente tranquila. Até hoje me martirizo por não ter olhado para trás (de novo) na hora de dar tchau para eles no aeroporto. Eu só me lembro de dar o último tchauzinho quando eles já não podem mais ver e fico me sentindo a pior pessoa do mundo porque sei que eles estavam me olhando até eu sumir do campo de visão deles. Arg. Enfim.

Fiz uma escala em Brasília e aproveitei para comer um enroladinho de goiabada, enquanto em terras brasileiras. Goiabada aqui é luxo, meu povo. A minha mãe me escreveu uma cartinha que eu só tive coragem de ler quando fiz a primeira escala nos EUA, quando o meu emocional já estava mais estruturado. O Brasil mexe demais comigo. Não sei o quê é, o ar, a língua, o clima. Tudo me deixa meio desconcertada.


Quando cheguei em terras americanas, fui toda prosa para a fila de residentes estampar o meu Green Card na cara do agente da imigração. Achei que eu ia ganhar um tratamento menos hostil, agora que eu sou residente permanente. Que nada! Tá, a fila do residentes é mais rápida que a dos estrangeiros, mas o tratamento gelo é o mesmo. Acho que vou ter que virar cidadã para poder lidar com esse gente. 

Depois do interrogatório todo, ele fez um sacrifício e disse: welcome back home. Não aguentei e dei um sorrisinho. Eu estava de volta em casa. O meu espírito só ficou melhor quando eu recebi uma mensagem do Jared dizendo "vai ser muito fácil me achar no aeroporto, eu sou o cara com o maior sorriso no rosto". Quem resiste?


Finalmente cheguei em Vegas. Sem sombra de dúvida era muito bom estar de volta, mas confesso que os três ou quatro primeiros dias foram assombrados pelo mesmo choque de realidade que é voltar para o Brasil. É sempre um processo de adaptação. Não vou mentir para vocês, nada é assim tão lindo. Só o meu Chima.


Isso sem falar que caiu a ficha do 2013. O ano de dar um rumo na minha vida profissional, sem a imigração no caminho, provavelmente o que mais me assusta nesse processo todo. Não tenho mais desculpas, não tenho mais tempo. Esse ultimato acaba comigo. Além disso, o casamento religioso está dobrando a esquina. Sabe o pé frio da pessoa que já casou e ainda sim morre de medo de casar? Pois é, tudo que eu vinha me preparando para acontecer, escrevendo, planejando, temendo, estava acontecendo mesmo, no gerúndio. 

A cada dia daquele mês de fevereiro, eu vivia mais e mais a minha decisão. Sim, agora eu sou residente dos Estados Unidos, sim eu vou realmente entrar em um vestido de noiva e trocar votos de eternidade na frente das nossas famílias e amigos, sim o casamento é lá, mas a minha vida agora é aqui e cada vez mais aqui.  

Àquelas alturas, não tinha mais espaço para dúvidas. Quisera eu ter entrado nessa história, como entro nos portões de embarque da vida: sem olhar para trás. No entanto, a minha inquietude não me deixa quieta e a minha personalidade controladora vive a analisar os "e ses?", na ilusão de ter algum controle.

Como sempre, o futuro virou presente muito rápido e mal deu tempo de eu me preparar para viver todas essas coisas que eu venho falando a tanto tempo. Isso porque a vida não tem preparo, não tem ensaio, não tem controle. A vida acontece. E a gente tem que seguir vivendo, sobrevivendo, sonhando.

Em fevereiro não tem mais carnaval, nem praia, muito menos futebol. O fevereiro de Iemanjá, calor e fim de férias, não é mais o meu fevereiro. A vida agora é outra e num piscar de olhos, fevereiro virou o fim do inverno e o dia dos namorados. E eu? Eu mudei com a vida. Na marra.

13 de junho de 2013

nem um dedo

Ainda janeiro de 2013.

No quinto dia de Brasil, eu já estava me sentindo bem melhor com a ideia de não morar mais lá, mas continuar tendo o meu espaço na casa dos meus pais. Naquele dia, de qualquer forma, antes que eu pudesse egoisticamente pensar e repensar nos meus sentimentos, uma vizinha ligou dizendo que estava levando o meu irmão (12 anos) para o hospital, porque ele tinha machucado o dedo. Ele estava na casa dela com os amigos, tomando banho de piscina.

Eu desliguei o telefone meio zonza, pensando no soldado que eu vi carregando o próprio dedo numa caixa de isopor, lá nos bons tempos da faculdade. Chamei a minha mãe e saímos correndo para o hospital. Chegamos lá antes deles. Ele entrou na emergência com a mão enrolada numa toalha cheia de sangue e disse: "não olha mãe, não olha Fabi", com uma cara de pavor que quebrou o meu coração em 597 pedaços.

A minha mãe acabou olhando o corte enquanto ele estava sendo atendido. Eu não tive coragem. Ele e os amigos estavam pulando de um muro com grade para dentro da piscina. Fazendo arte, como diz meu pai. Depois de pular algumas vezes, ele acabou se desequilibrando e caiu, raspou as costas no muro e cortou o dedo da ponta até a base da mão. Levantou a pele toda, mas vou poupar vocês desses detalhes.

Não tinha o que fazer em Encantado, ele precisava de uma cirurgia de reconstituição. Meu pai também já tinha chegado no hospital, passamos em casa, pegamos uma muda de roupas e fomos para Porto Alegre. A capital dos gaúchos fica em média 1 hora e meia de distância. Entre a hora do acontecido, mais o tempo levado com os curativos no hospital em Encantado, viagem e atendimento em Porto Alegre, estávamos correndo contra o tempo, porque depois de 6 horas a pele começa a necrosar, dificultando o processo de recuperação do dedo (eu digo isso na minha leiguice, né gente!).

No caminho para o hospital, ele me perguntou se eu achava que ele ia perder o dedo. Eu que vivo num mundo de Grey's Anatomy, onde tudo é possível, PROMETI que ele não ia perder o dedo. Detalhe que eu nem tinha visto o corte, mas naquela hora eu teria sido capaz de prometer qualquer coisa para ele. No clima de promessa, ele resolveu prometer raspar a cabeça se não precisasse amputar o dedo - anelar da mão esquerda.

Já a pediatra em Porto Alegre não teve um pingo de bom senso e disse que não sabia, mas que achava que o dedo já estava comprometido. Na frente da criança (!). Ao que minha mãe respondeu, "se tu estás dizendo que não sabe, não fica achando. Cadê o especialista?". O especialista chegou e achou o dedo "lindo", com certeza não seria preciso amputar. UFA! Respiramos de novo.

Ele entrou na sala de cirurgia, depois da meia noite, ainda dentro das tais seis horas. A minha irmã já tinha nos encontrado no hospital e ficamos os quatro na sala de espera. Numa espera longa. Depois que ele saiu da cirurgia com os dez dedinhos das mãos, eu voltei para o meu egoísmo de sempre, rezando para que se coisas dessa natureza tivessem que acontecer, que pelo menos eu pudesse estar junto e fazer parte desses momentos difíceis.

As pessoas que moram longe tentam voltar para casa no Natal e no Ano Novo, ás vezes num aniversário, casamento, formatura, nascimento. Porque essas coisas boas são previstas, planejadas, anunciadas. O problema de morar longe para mim, não é nem tanto não poder participar dessas coisas boas, como não poder estar lá para enfrentar as coisas ruins junto com eles, as coisas que pegam a gente de surpresa no meio da noite.

No dia seguinte, voltamos todos para casa, proibidos de dizer "eu daria um dedo para tal coisa acontecer". Na minha família, ninguém mais dá dedo nenhum em troca de nada. E o Dudu, que adora ter cabelo comprido, teve que raspar o cabeça!

O resto dos dias foram mais leves. Comemoramos o aniversário do meu pai, a formatura da Laura e o aniversário do Dudu, sem cabelo. Conheci o lindo Joaquim, filho da minha prima, e aproveitei para curtir todas aquelas coisas boas que eu tinha falado antes. As coisas que a gente planeja. Revi os meus avós, tios, primos, os amigos de infância e de faculdade.

Recarreguei as minhas energias, me recheei de carinho e quanto mais perto chegava a hora de ir embora, mas saudade eu tinha da minha casa, do meu marido e do meu cachorro. Não necessariamente nessa ordem. A minha mãe perguntava se eu estava com saudade dos Estados Unidos. Eu dizia que sim. Ela respondia, "que bom, saudade é bom, sinal que tu é feliz lá". E eu sou feliz mesmo, mas no dia de entrar no avião de volta para a minha casa, felicidade é uma palavra que não cabe. 

Como eu sempre digo, é sempre uma tristeza. Pelo menos até metade do caminho, quando a tristeza vira alegria de chegar.  Bem assim, como diz a música da Maria Rita, "chegar e partir... são só dois lados da mesma viagem, o trem que chega é o mesmo trem da partida, a hora do encontro, é também de despedida..."




6 de junho de 2013

o prego e o cano

Janeiro de 2013.

Quando eu tinha quase 15 anos, minha família se mudou de Pelotas, onde eu nasci e cresci, para Encantado, uma cidadezinha que eu nunca tinha ouvido falar antes de o meu pai ter recebido uma oportunidade de emprego lá. 

Apesar do clima e mentalidade interiorana, Pelotas é a terceira cidade mais populosa do estado, com mais de 300 mil habitantes. Encantado fica à 400 km de Pelotas e parece fazer parte de uma outra galáxia. Colonizada por italianos, a cidade oferece aos seus cerca de 20 mil habitantes um pedacinho de tranquilidade na terra, escondido no Vale do Taquari.

Encantado nos tratou muito bem e eu tenho um carinho enorme pela cidade que virou a minha segunda terra natal - se é que pode um sujeito ter duas terras natais, pois digam o que disserem, eu não abro mão de Pelotinhas. De qualquer forma, eu renasci em Encantado e escolhi esse lugar mágico para me casar (de novo!). 

No entanto, naquele agosto frio de 2001, Encantado não tinha nada de encantado. No auge dos meus 15 anos, eu queria morrer naquele lugar. O povo falava esquisito, não tinha transporte público, nem cinema (continua não tendo) e a cidade tinha apenas dois semáforos, hoje substituídos por rotatórias. Eu era um peixe fora d'água, por mais lugar comum que essa expressão possa ser.

De agosto a dezembro, consegui reprovar em metade das matérias daquele bimestre. Sim, eu sou da época dos bimestres. Eu já fui de Pelotas passada de ano, então decidi que eu não ia estudar mais naquele ano difícil e os meus pais tiveram que engolir as minhas notas baixas. Eu era oficialmente um problema.

Chegou o fim de 2001, finalmente. Meu pai vendo a minha tristeza constante, disse que era para eu ir para Pelotas passar o Ano Novo com os meus amigos. Eu disse que não ia, vendo a cara de "nem pensar, por favor, não vai" da minha mãe. Ele disse para eu pensar e dar a resposta no dia seguinte.

Pensei e decidi que não ia. Eles eram a minha família e a minha vida era lá e pronto. A mudança agora ia vir de dentro, independente do que tinha mudado no lado de fora. Aquela velha história de a vida ser um reflexo da maneira como a encaramos. A gente é que faz o bom ou o ruim das nossas experiências. Com certeza, naquela época essa atitude foi muito mais intuitiva do que racional. Eu tinha 15 anos e achava que sabia tudo, onze anos depois tenho certeza que não sei bosta nenhuma.

2002 chegou e eu fui passar férias em Pelotas. Quando voltei para Encantado, eu era outra pessoa. Troquei de turma no colégio, conheci as minhas amigas que carrego até hoje, comecei a trabalhar na coluna jovem de um jornal local e me abri para o tal lugar Encantado, que estava ali na minha frente o tempo todo.

Eu vinha pensando nesse desfecho há um tempo antes de voltar para o Brasil. Eu achei que dessa vez seria igual, eu iria para casa, rever todo mundo, pisar no meu chão e sentir aquele conforto de fim de capítulo, página virada, reafirmando a minha decisão de ter ido embora.

Acontece que não foi bem assim. Como a gente bem sabe que nada sabe, aos quinze anos era tudo mais fácil. O drama era maior, mas, ao mesmo tempo, mais superficial. Dessa vez, o corte era tão profundo, que dar de cara com a ferida aberta foi um pouco mais complicado do que eu previ. Chorei nas três primeiras noites no quarto que mal foi meu e que tão rápido já não era mais. Chorei porque parte de mim queria aquela vida perto de casa. Eu queria aquele quarto, com todas as minhas caixas de memórias dentro. Eu queria aquela vida de volta, principalmente, porque aquela vida não era mais minha.

Para não pensar no querer, o meu lado virginiano prático entrou em ação. Acredite se quiser, naquelas três primeiras noites, madrugada a dentro, parte por causa do fuso-horário, parte por causa das minhocas na cabeça, eu refiz todas as minhas malas. Enchi as malas com as minhas coisas que tinham que ir comigo para minha  vida - ainda - nova, na tentativa frustada de amenizar a distância, de amenizar a saudade, de desviar a minha atenção para algo especificamente braçal.

Dizem que as coisas materiais são a maneira mais fácil de alcançar a felicidade instantânea. Estamos tristes, insatisfeitos, quase deprimimos e buscamos as respostas em coisas. É do ser humano, já que essas coisas materiais podemos ter, enquanto as outras coisas não-materiais são tão mais difíceis de conseguir.

Eu não podia ter a minha família perto de mim. Pode ter certeza que aquele porta-jóias caindo aos pedaços, que ocupa metade da mala, vai comigo. É visceral, eu me agarro em todo pedaço de pano que me pertence, mesmo sabendo que eu não preciso de mais um vestido velho nos Estados Unidos.

Quando o Jared se mudou para essa casa, eu estava visitando, tivemos um vazamento na cozinha no segundo dia. Um dos canos embaixo da pia tinha sido atingido por um prego dos armários. O prego furou o cano e o cano se ajustou ao prego, devido a uma propriedade daquele tipo de plástico de voltar a sua forma de origem. Só depois de um tempo, o prego começou a enferrujar, causando o vazamento de água.

Naquele quarto dia, na casa dos meus pais, eu era um cano que se ajustou a um prego. Eu tinha que me adaptar. Eles iam ser a minha família para sempre e iam seguir vivendo a vida deles bem longe de mim. Eu tinha que viver a minha com a minha nova família, chamada Jared. O Jared e a vida nova não eram sacrifício nenhum. Sacrifício era não ter o resto todo.

A mim, só restava rezar para que o prego no meu cano ficasse ali quietinho, sem mais vazamentos. Com o passar dos dias foi ficando e ficou.