13 de junho de 2013

nem um dedo

Ainda janeiro de 2013.

No quinto dia de Brasil, eu já estava me sentindo bem melhor com a ideia de não morar mais lá, mas continuar tendo o meu espaço na casa dos meus pais. Naquele dia, de qualquer forma, antes que eu pudesse egoisticamente pensar e repensar nos meus sentimentos, uma vizinha ligou dizendo que estava levando o meu irmão (12 anos) para o hospital, porque ele tinha machucado o dedo. Ele estava na casa dela com os amigos, tomando banho de piscina.

Eu desliguei o telefone meio zonza, pensando no soldado que eu vi carregando o próprio dedo numa caixa de isopor, lá nos bons tempos da faculdade. Chamei a minha mãe e saímos correndo para o hospital. Chegamos lá antes deles. Ele entrou na emergência com a mão enrolada numa toalha cheia de sangue e disse: "não olha mãe, não olha Fabi", com uma cara de pavor que quebrou o meu coração em 597 pedaços.

A minha mãe acabou olhando o corte enquanto ele estava sendo atendido. Eu não tive coragem. Ele e os amigos estavam pulando de um muro com grade para dentro da piscina. Fazendo arte, como diz meu pai. Depois de pular algumas vezes, ele acabou se desequilibrando e caiu, raspou as costas no muro e cortou o dedo da ponta até a base da mão. Levantou a pele toda, mas vou poupar vocês desses detalhes.

Não tinha o que fazer em Encantado, ele precisava de uma cirurgia de reconstituição. Meu pai também já tinha chegado no hospital, passamos em casa, pegamos uma muda de roupas e fomos para Porto Alegre. A capital dos gaúchos fica em média 1 hora e meia de distância. Entre a hora do acontecido, mais o tempo levado com os curativos no hospital em Encantado, viagem e atendimento em Porto Alegre, estávamos correndo contra o tempo, porque depois de 6 horas a pele começa a necrosar, dificultando o processo de recuperação do dedo (eu digo isso na minha leiguice, né gente!).

No caminho para o hospital, ele me perguntou se eu achava que ele ia perder o dedo. Eu que vivo num mundo de Grey's Anatomy, onde tudo é possível, PROMETI que ele não ia perder o dedo. Detalhe que eu nem tinha visto o corte, mas naquela hora eu teria sido capaz de prometer qualquer coisa para ele. No clima de promessa, ele resolveu prometer raspar a cabeça se não precisasse amputar o dedo - anelar da mão esquerda.

Já a pediatra em Porto Alegre não teve um pingo de bom senso e disse que não sabia, mas que achava que o dedo já estava comprometido. Na frente da criança (!). Ao que minha mãe respondeu, "se tu estás dizendo que não sabe, não fica achando. Cadê o especialista?". O especialista chegou e achou o dedo "lindo", com certeza não seria preciso amputar. UFA! Respiramos de novo.

Ele entrou na sala de cirurgia, depois da meia noite, ainda dentro das tais seis horas. A minha irmã já tinha nos encontrado no hospital e ficamos os quatro na sala de espera. Numa espera longa. Depois que ele saiu da cirurgia com os dez dedinhos das mãos, eu voltei para o meu egoísmo de sempre, rezando para que se coisas dessa natureza tivessem que acontecer, que pelo menos eu pudesse estar junto e fazer parte desses momentos difíceis.

As pessoas que moram longe tentam voltar para casa no Natal e no Ano Novo, ás vezes num aniversário, casamento, formatura, nascimento. Porque essas coisas boas são previstas, planejadas, anunciadas. O problema de morar longe para mim, não é nem tanto não poder participar dessas coisas boas, como não poder estar lá para enfrentar as coisas ruins junto com eles, as coisas que pegam a gente de surpresa no meio da noite.

No dia seguinte, voltamos todos para casa, proibidos de dizer "eu daria um dedo para tal coisa acontecer". Na minha família, ninguém mais dá dedo nenhum em troca de nada. E o Dudu, que adora ter cabelo comprido, teve que raspar o cabeça!

O resto dos dias foram mais leves. Comemoramos o aniversário do meu pai, a formatura da Laura e o aniversário do Dudu, sem cabelo. Conheci o lindo Joaquim, filho da minha prima, e aproveitei para curtir todas aquelas coisas boas que eu tinha falado antes. As coisas que a gente planeja. Revi os meus avós, tios, primos, os amigos de infância e de faculdade.

Recarreguei as minhas energias, me recheei de carinho e quanto mais perto chegava a hora de ir embora, mas saudade eu tinha da minha casa, do meu marido e do meu cachorro. Não necessariamente nessa ordem. A minha mãe perguntava se eu estava com saudade dos Estados Unidos. Eu dizia que sim. Ela respondia, "que bom, saudade é bom, sinal que tu é feliz lá". E eu sou feliz mesmo, mas no dia de entrar no avião de volta para a minha casa, felicidade é uma palavra que não cabe. 

Como eu sempre digo, é sempre uma tristeza. Pelo menos até metade do caminho, quando a tristeza vira alegria de chegar.  Bem assim, como diz a música da Maria Rita, "chegar e partir... são só dois lados da mesma viagem, o trem que chega é o mesmo trem da partida, a hora do encontro, é também de despedida..."




12 comentários:

  1. Lindo Lindo Lindo!

    E com certeza vai estar junto deles e da gente nos momentos bons e ruins!

    Beijos!

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    1. :) obrigada Mariazinha do meu <3! beijo, saudade.

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  2. Esses gurizinhos arteiros, conheço bem! Primeiro tu pensa assim, ah, tava fazendo arte! Mas depois que vê aqueles olhinhos, o coração derrete. Ainda bem que deu tudo certo!

    Quem dera o John Lennon fosse ouvido e não existissem países e fronteiras... Meio utópico, mas a gente se sente assim as vezes. Família em um país, namorado no outro, amigo no outro... Enquanto isso a gente pega avião, faz escala, mais escala, and keep imagining.

    Bjs (adoro essas sextas feiras de manhã com teus textos!!!)

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    1. Disse tudo Annita! Bem assim mesmo!

      A gente keep imagining.. :S

      beijokas

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  3. Este texto é a Fabiana, sem dúvida, gentil, verdadeiro, encantador, falando para o coração da gente.

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    1. Aaaah! me derreto toda com anônimos fofos :) muito obrigada! beijo grande!

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  4. Oi Fabi!
    Que saudades de comentar aqui no seu blog menina ! Essa coisa do G+ me atrapalhou um pouco , mas cá estou prá dizer , ou melhor , prá te pedir um favor : peça para o seu irmão não me aprontar uma dessas de novo ! Quase morro de aflição ! Não tenho mais idade para fortes emoções não ! rs ...
    Bjs

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    1. Ai Lana, pois eh, senti tua falta mesmo!! O google+ me sacaneou viu?! Agora ta desativado e voltou ao normal de antes. Ruim eh que os comentarios de quem comentou atraves do G+ sumiram. Vou te contar hein?!

      Acho que meu irmao aprendeu a licao de "nao fazer arte" hahaha tbm to velha para essas coisas! hahaha beijo grande

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  5. Parabéns mais uma vez! E por favor, chega aos dias de hoje mas não termina com essa obra de arte.
    Muito legal! Parabéns e seja Feliz!

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    1. Muito obrigada! Infelizmente, o blog ja tem data para acabar, mas prometo que ainda vamos nos encontrar bastante por aqui :) beijo grande!

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  6. Nossa Fabi, q aflição!!!! Q arte pé essa que precisou até operar!

    Bom....tem aquela frase q sempre lembro tb....'tudo q é bom duro pouco, mas duro o tempo suficiente para que se torne inesquecível'. É isso, os tempos bons acabam mas temos esperança de que os próximos serão melhores ainda.

    E não gostei desse negócio do blog acabar não! :(

    Bjos

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    1. sim, aprontar pouco é bobagem né Débora. Ele foi com tudo! hahaha mas ainda bem que foi só um susto mesmo.

      Pois é, flor, o blog vai acabar pq já to começando a me achar uma chata, mas prometo que vamos juntos até o altar!! ah e depois eu invento outro blog :P hhehe beijokas

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