6 de junho de 2013

o prego e o cano

Janeiro de 2013.

Quando eu tinha quase 15 anos, minha família se mudou de Pelotas, onde eu nasci e cresci, para Encantado, uma cidadezinha que eu nunca tinha ouvido falar antes de o meu pai ter recebido uma oportunidade de emprego lá. 

Apesar do clima e mentalidade interiorana, Pelotas é a terceira cidade mais populosa do estado, com mais de 300 mil habitantes. Encantado fica à 400 km de Pelotas e parece fazer parte de uma outra galáxia. Colonizada por italianos, a cidade oferece aos seus cerca de 20 mil habitantes um pedacinho de tranquilidade na terra, escondido no Vale do Taquari.

Encantado nos tratou muito bem e eu tenho um carinho enorme pela cidade que virou a minha segunda terra natal - se é que pode um sujeito ter duas terras natais, pois digam o que disserem, eu não abro mão de Pelotinhas. De qualquer forma, eu renasci em Encantado e escolhi esse lugar mágico para me casar (de novo!). 

No entanto, naquele agosto frio de 2001, Encantado não tinha nada de encantado. No auge dos meus 15 anos, eu queria morrer naquele lugar. O povo falava esquisito, não tinha transporte público, nem cinema (continua não tendo) e a cidade tinha apenas dois semáforos, hoje substituídos por rotatórias. Eu era um peixe fora d'água, por mais lugar comum que essa expressão possa ser.

De agosto a dezembro, consegui reprovar em metade das matérias daquele bimestre. Sim, eu sou da época dos bimestres. Eu já fui de Pelotas passada de ano, então decidi que eu não ia estudar mais naquele ano difícil e os meus pais tiveram que engolir as minhas notas baixas. Eu era oficialmente um problema.

Chegou o fim de 2001, finalmente. Meu pai vendo a minha tristeza constante, disse que era para eu ir para Pelotas passar o Ano Novo com os meus amigos. Eu disse que não ia, vendo a cara de "nem pensar, por favor, não vai" da minha mãe. Ele disse para eu pensar e dar a resposta no dia seguinte.

Pensei e decidi que não ia. Eles eram a minha família e a minha vida era lá e pronto. A mudança agora ia vir de dentro, independente do que tinha mudado no lado de fora. Aquela velha história de a vida ser um reflexo da maneira como a encaramos. A gente é que faz o bom ou o ruim das nossas experiências. Com certeza, naquela época essa atitude foi muito mais intuitiva do que racional. Eu tinha 15 anos e achava que sabia tudo, onze anos depois tenho certeza que não sei bosta nenhuma.

2002 chegou e eu fui passar férias em Pelotas. Quando voltei para Encantado, eu era outra pessoa. Troquei de turma no colégio, conheci as minhas amigas que carrego até hoje, comecei a trabalhar na coluna jovem de um jornal local e me abri para o tal lugar Encantado, que estava ali na minha frente o tempo todo.

Eu vinha pensando nesse desfecho há um tempo antes de voltar para o Brasil. Eu achei que dessa vez seria igual, eu iria para casa, rever todo mundo, pisar no meu chão e sentir aquele conforto de fim de capítulo, página virada, reafirmando a minha decisão de ter ido embora.

Acontece que não foi bem assim. Como a gente bem sabe que nada sabe, aos quinze anos era tudo mais fácil. O drama era maior, mas, ao mesmo tempo, mais superficial. Dessa vez, o corte era tão profundo, que dar de cara com a ferida aberta foi um pouco mais complicado do que eu previ. Chorei nas três primeiras noites no quarto que mal foi meu e que tão rápido já não era mais. Chorei porque parte de mim queria aquela vida perto de casa. Eu queria aquele quarto, com todas as minhas caixas de memórias dentro. Eu queria aquela vida de volta, principalmente, porque aquela vida não era mais minha.

Para não pensar no querer, o meu lado virginiano prático entrou em ação. Acredite se quiser, naquelas três primeiras noites, madrugada a dentro, parte por causa do fuso-horário, parte por causa das minhocas na cabeça, eu refiz todas as minhas malas. Enchi as malas com as minhas coisas que tinham que ir comigo para minha  vida - ainda - nova, na tentativa frustada de amenizar a distância, de amenizar a saudade, de desviar a minha atenção para algo especificamente braçal.

Dizem que as coisas materiais são a maneira mais fácil de alcançar a felicidade instantânea. Estamos tristes, insatisfeitos, quase deprimimos e buscamos as respostas em coisas. É do ser humano, já que essas coisas materiais podemos ter, enquanto as outras coisas não-materiais são tão mais difíceis de conseguir.

Eu não podia ter a minha família perto de mim. Pode ter certeza que aquele porta-jóias caindo aos pedaços, que ocupa metade da mala, vai comigo. É visceral, eu me agarro em todo pedaço de pano que me pertence, mesmo sabendo que eu não preciso de mais um vestido velho nos Estados Unidos.

Quando o Jared se mudou para essa casa, eu estava visitando, tivemos um vazamento na cozinha no segundo dia. Um dos canos embaixo da pia tinha sido atingido por um prego dos armários. O prego furou o cano e o cano se ajustou ao prego, devido a uma propriedade daquele tipo de plástico de voltar a sua forma de origem. Só depois de um tempo, o prego começou a enferrujar, causando o vazamento de água.

Naquele quarto dia, na casa dos meus pais, eu era um cano que se ajustou a um prego. Eu tinha que me adaptar. Eles iam ser a minha família para sempre e iam seguir vivendo a vida deles bem longe de mim. Eu tinha que viver a minha com a minha nova família, chamada Jared. O Jared e a vida nova não eram sacrifício nenhum. Sacrifício era não ter o resto todo.

A mim, só restava rezar para que o prego no meu cano ficasse ali quietinho, sem mais vazamentos. Com o passar dos dias foi ficando e ficou.

4 comentários:

  1. Alguma dúvida de que nada nesta vida acontece se não for para acontecer? Por mais difícil que às vezes seja compreender, tudo tem uma razão. O controle que achamos ter das nossas vida é totalmente ilusório!!
    O caminho então, é ser feliz sem ansiedade (me diz como?? :P)

    Saudadessemprecontandoosdiaspranovembroamotu!!!!!

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    1. Eu sempre lembro do Steve Jobs que disse num discurso uma vez, algo do tipo, viver é ligar os pontinhos e no final aparece o desenho.

      A ansiedade faz parte do caminho neh? a gente nao aprende! arg!
      Fica mais facil contigo andando junto. <3

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  2. Vc é pura emoção, né? Ou eu q devo ser totalmente desprovida de sentimentos....rs. Amo minha família mas não vejo assim como vc, eu quero o mundo, eu quero a liberdade, casei cedo pra ver se conseguia....é, eu amo estar casada! rs

    Bjos

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    1. hahaha eu sou mega apegada a eles. Ainda ontem encontrei uma foto dos meus pais no meio de um livro e ja morri de saudade!! Mas faz parte de crescer neh?!

      beijokas

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