26 de setembro de 2013

o dia que não era para chegar, chegou

12 de setembro de 2013.

Aconteceu  a coisa mais que eu mais temia: perdi um dos meus avós. A mãe do meu pai nos deixou numa quinta qualquer, que virou a pior quinta-feira de todas. A vida é muito truculenta e faz questão de jogar na cara das pessoas o quão despreparados nós somos. Somos pequenos. Minúsculos.

Antes de eu decidir vir para cá, eu pensei muito nisso. Pensei que a minha avó ia morrer e eu não ia estar presente. Pior do que isso, pensei que eu ia perder os últimos anos de vida dela e chamei ela para uma conversa séria. Acho até que já contei para vocês. Ela me disse que a gente já tinha muitas memórias juntas e que quando ela morresse, eu não poderia fazer muito coisa. Era para eu vir e ser feliz.

A ironia da coisa toda é que essa avó, continua viva, firme e forte. Batam na madeira comigo. A minha outra avó foi que me deixou. Sem aviso, sem preparo, sem conversa. Eu nunca tive medo que ela fosse morrer, pelo simples fato de que eu acreditava com todo o meu coração quando ela me dizia que ia viver muitos e muitos anos.

Ela não tinha nenhum problema sério de saúde e gostava tanto de viver que nem cogitava a ideia da morte. Muito menos eu, muito menos nós. Foi uma puxada de tapete e tanto.

Eu falei com ela na quarta-feira, dia 11. Ela disse que queria comprar um computador para poder me ver. Pedi para ela fazer um videozinho dela e do vô dançando para eu poder montar uma coisinha para o casamento. Ela achou a ideia muito bonita e ainda para completar falou que andava com uma dor nas costas, mas que estava se cuidando para poder dançar bastante no casamento. Ela adorava uma festa.

Mandou beijo para o Chima e para o Jared. Ela sempre repetia o nome dele duas ou três vezes, tentando dizer "certo". Desligamos. Na manhã seguinte, outra ligação. Não era dela.

Era cedo. Eu tinha largado o Jared no trabalho e mal tinha chegado em casa para começar o meu dia. Ele me ligou e disse com a voz apressada. - Eu só quero te avisar que estou chegando em casa daqui uns cinco minutinhos e não tenho a chave da frente. Vou bater na porta.

Eu prontamente perguntei: - por que tu tá vindo pra casa? Aconteceu alguma coisa? Ao que ele respondeu: - já estou chegando, cinco minutinhos. Eu desliguei o telefone sem insistir numa resposta concreta, porque não gosto que ele fale no celular enquanto dirige. 

No entanto, assim que eu desliguei, minhas pernas amoleceram e eu sabia que alguma coisa terrível tinha acontecido. Liguei de novo. Cinco minutos era muito tempo. 

- Jared me diz o que aconteceu. 
   Ele não falava nada.
- Jared tua família tá bem? Minha família tá bem?
- To chegando, to aqui na esquina.
- Jared me diz, pelo amor de Deus.

Nessa hora, eu já estava na frente da casa e vi o carro da empresa dele dobrar na nossa rua. Me diz o que aconteceu, eu quase implorava. Aí ele me disse. Ainda pelo telefone: - a mãe do teu pai faleceu.

Eu entendi que alguém da minha família tinha morrido, mas não entendi quem. Entrei em casa aos prantos pensando que o pai da minha mãe tinha morrido. Ele disse que não, que tinha sido a mãe do meu pai. Ainda sem entender, eu perguntei se a mãe da minha mãe tinha morrido. Ele me abraçava e repetia que a mãe do meu pai tinha morrido. Eu não entendia. 

Teria sido terrível a morte de qualquer um deles e acho que a confusão faz parte do choque. Ela não tinha nada de grave. Naquela noite, ela teve um ataque cardíaco, chegou a ser levada ao hospital e foi para UTI. Depois do infarto, ela teve uma parada cardíaca e não resistiu. Isso foi o que eu entendi, mesmo que nada disso faça nenhum sentido.

A minha prima, que também mora nos EUA, avisou o Jared, que veio para casa com a má notícia. Ainda bem que deu tempo de ele chegar antes da ligação da minha mãe. Pelo menos ele estava aqui comigo. Ele tirou a manhã de folga e me levou na igreja. Uma igreja bonita. Rezei, chorei, rezei de novo. Acendi velas elétricas. Não tinha Cristo que me fizesse entender essa coisa tão permanente, tão imponente e tão tão triste.

Eu me sentia a pessoa mais sortuda do mundo e enchia a boca para dizer que eu tinha os quatro avós vivos. De qualquer forma, eu continuo muito agradecida por ter tido os quatro o tempo que eu tive. E pelos três que ainda tenho. Se eu pudesse pedir mais um dia, mais uma ligação, mais uma semana, quem sabe dois meses, eu ia querer qualquer pedacinho de tempo a mais com a minha Vó Nenê.

Quando pequena, eu não conseguia dizer o nome dela direito. Então eu chamava ela de Vó Nenê. Aí eu cresci, aprendi a falar, mas continuei chamando ela de Vó Nenê. Quando os meus irmãos nasceram, eles também adotaram o apelido e  nós os três chamávamos ela de Vó Nenê.

Eu não ia escrever sobre isso porque não existem palavras para falar da morte. Ninguém sabe o que dizer, mas mesmo sem a gente saber direito, eu acho que precisa ser dito. Eu não ia conseguir vir aqui escrever sobre o casamento como se nada tivesse acontecido. Eu mal consigo responder a pergunta genérica das pessoas - se está tudo bem - sem pensar, não está nada bem, minha Vó Nenê morreu.

Eu falo nela todos os dias. Às vezes me esqueço que ela morreu. Pra mim não parece verdade. Pra mim não passa de uma infeliz ligação telefônica. Aí eu me lembro dela e digo para mim mesma que ela morreu. Quase que um beliscão. Fico triste de novo. Depois passa. E volta. É uma dor que vai e vem.

Não sei como vai ser quando eu chegar no Brasil e ela não estiver lá, falando rápido e bastante, com o riso fácil e solto. Só sei que eu gosto muito da minha Vó Nenê e vou guardar comigo o amor que ela tinha pela vida junto com a saudade que eu já sentia antes, mas que agora é uma saudade diferente. Uma saudade irreversível, sem recarga. Sem fim.

8 comentários:

  1. chorando na mesa de trabalho.
    meu avô paterno faleceu no começo do mês e eu me paro chorando pela rua quando vejo algum velhinho de calça social bege, de bigode, catando baixinho.
    é irreal pensar que ele não vai estar no meu casamento, nos meus aniversários, nos findis em Arroio Grande.
    eu ainda tô com um puta buraco no peito, que nunca vai passar. o que dói muito é pensar que sei la, vou passar os próximos 70 anos com saudades dele.
    Claro que sei que ele tá bem e etc, e talvez seja uma dor meio egoísta pensando na falta que EU vou sentir, mas nao consigo desvincular.
    nao vou terminar com uma frase motivadora, dizendo que vai passar.
    só dizer que é a vida, mesmo.
    um beijo, fabi.

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    1. Oi Carol, sinto muito muito muito pela tua perda. Muito obrigada por me poupar dos "ela está em lugar bonito" ou "ela vai estar sempre contigo". Também vou te poupar das mesmas frases prontas. Eles estão bem sim, mas na real é uma merd*! E não há nada que faça a gente se sentir menos pior, só o tempo que vai amenizar um pouco eu acho.

      Tbm me senti egoísta pensando que ela não vai estar no casamento e tudo mais. Faz parte da gente. E de certa forma é até bonito, afinal o amor é egoísta, por mais que as pessoas digam que não.

      Um beijo bem grande para ti. Vamos lidando com vida do jeito que dá e acumulando essas cicatrizes que devem ter razão de existir. Sei lá. <3

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    2. Fabiana, é uma merd* mesmo e sinto informar que NUNCA passa.

      A minha vó também morreu de repente. Estava 100%, mas um dia dormiu e não acordou. Já se passaram 12 anos e eu ainda penso que ela está viva. A diferença é que ao invés de telefonar, eu rezo. Eu não sou religiosa, mas ela era, e essa é a forma que encontrei de falar com ela.

      Desejo que encontres logo a tua própria forma de lidar com essa perda - e outras que invariavelmente virão.

      Um beijo,
      Juliana

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    3. Pois é Juliana. Complicado né? Não tem muito o que fazer. Eu nunca tinha perdido ninguém então é um sentimento muito novo para mim. Não sei bem como lidar. Assim como vc, eu rezo sempre qd penso nela. Também não sou muito religiosa, mas a minha vó que nem a sua tinha muita fé. Não deixa de ser um conforto.

      Obrigada pelo carinho e comentário. Beijos, Fabi.

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  2. Oi Fabi !
    Infelizmente, a morte faz parte da vida . Odeio esse clichê só porque ele acontece com todo mundo !
    : /

    Fica bem - se é que isso é possível num momento como esse.
    Bj
    Lana

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    1. muito obrigada, Lana. A morte eh o maior cliche! Eu agradeco o carinho. Vou ficar bem sim. Beijokas

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  3. Não existe nada na vida que consiga me explicar essa perda tão precoce, de uma criatura tão boa, tão cheia de vida e tão amada! Ficamos todos um pouco "órfãos", um pouco desorientados, pq eu ainda não assimilei que ela não existe mais. Ela tinha me ligado terça-feira e eu estava p fora (o sinal é péssimo) e eu só entendia o "É a Celenê, menina!" fiquei de ligar quando chegasse na cidade mas antes de ter feito isso meu irmão ligou chorando e contando que ela tinha nos deixado! Vamos guardar as lembranças mais carinhosas e alegres dela... Certamente ta tomando mate doce com a vó Maria em algum lugar por aí, chegou lá dizendo: "Cheguei, mulher!" Beijão, Fabi... te cuida!

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    1. Grazi, ta muito difícil de assimilar mesmo. Lendo o que tu escreveu quase escuto a voz dela! Ta muito ruim e estranho. :( obrigada pelas palavras bonitas, fiquem bem ai, ela esta la em cima cuidando de nós! Beijo grande.

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